Por GINA KOLATA
A importância da desaceleração gradual após
os exercícios está enraizada na doutrina da ginástica.
É citada nos livros de fisiologia, os personal
trainers insistem nela, e revistas especializadas recomendam. Em equipamentos
de academias, chega a ser algo automático: você digita
o tempo que deseja se exercitar, e, quando o tempo termina, a máquina
por si só reduz a carga e continua por mais cinco minutos, para
que você desacelere.
O problema, diz Hirofumi Tanaka, fisiologista do exercício da
Universidade do Texas, Austin, é que praticamente não
há base científica para esse conselho.
Essa desaceleração é "um tópico subestudado",
diz. "Todos acham que é um fato estabelecido, então
não o estudam."
Não está claro o que essa desaceleração
deveria ser. Alguns dizem que basta continuar em movimento por alguns
minutos. Outros afirmam que é preciso passar 5 a 10 minutos fazendo
o mesmo exercício, só que mais lentamente. E há
quem garanta que é necessário incluir alongamento.
Tampouco está claro para que ela serve. Alguns dizem que alivia
a dor muscular. Outros afirmam que evita a rigidez muscular ou que alivia
a carga cardíaca.
Os pesquisadores dizem que só há consenso acerca do possível
risco de uma parada repentina. Durante exercícios intensos, os
vasos das pernas se dilatam para levar mais sangue às pernas
e pés, e o coração bate mais rápido. Se
você para de repente, seu coração se desacelera,
o sangue se acumula nas pernas e aos pés, e você pode ficar
tonto e até desmaiar.
Os melhores atletas são os mais vulneráveis, segundo o
cardiologista e maratonista Paul Thompson, pesquisador do exercício
do Hospital Hartford, em Connecticut (EUA). "Se você é
bem treinado, seu ritmo cardíaco já é lento e se
desacelera com ainda mais rapidez com o exercício", disse.
Esse efeito pode ser nocivo para alguém com uma doença
cardíaca, disse o fisiologista Carl Foster, da Universidade de
Wisconsin em La Crosse, explicando que, nesses casos, os vasos sanguíneos
que chegam ao coração já estão mais estreitos,
dificultando a passagem do sangue.
Mas isso importa para o atleta comum, mediano? "Provavelmente não
muito", disse Thompson. E, de qualquer forma, a maioria das pessoas
não fica parada como pedra quando a ginástica termina.
Elas andam até o vestiário, até o carro ou até
sua casa, beneficiando-se da desaceleração sem oficialmente
"desacelerar".
A ideia da desaceleração parece ter se originado da teoria
popular -hoje desmentida- segundo a qual os músculos doem depois
do exercício por acumularem ácido láctico.
Na verdade, o ácido láctico é um combustível.
É uma parte normal do exercício e nada tem a ver com a
dor muscular. Mas a teoria do ácido láctico levou à
noção de que reduzir lentamente a intensidade da atividade
permitiria que a substância se dissipasse.
Segundo Tanaka, um estudo com ciclistas concluiu que, sendo o ácido
láctico bom, é melhor não desacelerar depois de
um exercício intenso. O ácido láctico era revertido
em glicogênio, um combustível muscular, quando os ciclistas
simplesmente paravam. Quando desaceleravam, era desperdiçado
na alimentação dos músculos.
E, quanto à dor muscular, a desaceleração não
a alivia, segundo Tanaka. E a rigidez muscular? "Não há
dados para apoiar a ideia de que a desaceleração ajuda",
disse Foster.
Os pesquisadores do exercício dizem seguir os seus próprios
conselhos. Thompson afirma que, se está fazendo uma atividade
puxada em pista, caminha uma curta distância ao terminar, para
evitar a tontura. Já Tanaka não desacelera nada. Ele joga
futebol e diz que não vê uma razão específica
para fazer nada após o exercício a não ser, simplesmente,
parar.
fonte: folhauol
topo