por Hudson Malta/Redação BikeBros.com.br
Há duas modalidades no Mountain Bike (MTB), totalmente
baseadas no MTB original, cujas siglas (XCO e XCM) ainda fazem confusão
na cabeça de muita gente. Neste artigo, vamos explicar as diferenças
entre os dois e dar dicas de como curtir ao máximo a modalidade
da sua escolha.
"E fez-se a luz..."
Desde sua “invenção”, há pelo menos
30 anos, o MTB já passou por inúmeras evoluções,
tanto nos aspectos práticos quanto técnicos. Praticamente
tudo mudou desde aqueles dias nas montanhas de Marin County , Califórnia,
onde doidos como Joe Breeze, Otis Guy, Gary Fisher, e Tom Ritchey desciam
as trilhas locais feito loucos, pilotando antigas bikes Schwinn Excelsior
parcamente modificadas – as famosas “Klunkers”. De
lá pra cá, o esporte se dividiu em várias categorias,
tornou-se olímpico e revolucionou o mundo da bicicleta, arregimentando
uma multidão de fanáticos apaixonados pelo mundo todo.
Antigamente, havia apenas o Cross Country (XC). Consistia
na mais pura e simples expressão do uso de uma bike de MTB: pedalar
por aí, cruzando rios, montanhas e trilhas, transpassando por
obstáculos impostos pela Natureza. Nas competições,
o XC era como hoje, realizado em voltas dentro de um circuito fechado.
No Brasil, no início dos ‘ 90, haviam algumas raras competições
que ligavam dois pontos distintos, que ficaram conhecidas como “Trip
Trail” na época. Eram os precursores tupiniquins das nossas
maratonas atuais.
A UCI - União Ciclística Internacional
– reconheceu o MTB oficialmente em 1990, quando rolou o primeiro
campeonato mundial, na Califórnia, tendo a lenda viva Ned Overend
(EUA) como campeão. Após as Olimpíadas de Atlanta,
em 96, quando o MTB se tornou definitivamente parte dos Jogos, apareceu
o termo “XCO”, ou Cross Country Olímpico, batizando
oficialmente as competições em circuitos fechados, com
extensão a partir de 4km. Pouco tempo depois, começaram
a surgir, em escala internacional, vários eventos onde não
havia mais circuito fechado, e sim, uma longa distância a ser
percorrida entre dois pontos, normalmente acima de 60km. Esta modalidade
ganhou o nome “XCM”, ou Cross Country Maratona. Na verdade,
as maratonas já existiam há bastante tempo no mundo todo
(como as nossas "Trip Trails", por exemplo...) , mas ainda
não eram tão populares. E, de qualquer forma, ainda se
chamavam “XC”. A partir do primeiro campeonato mundial de
XCM, na Suíça, em 2003, a modalidade estava oficialmente
sancionada pela UCI –, e passou a ser reconhecida como disciplina
independente no MTB. O primeiro campeão da modalidade foi o fenômeno
suíco Thomas Frischknecht.
Distâncias
Hoje, as distâncias médias para provas
de XCO ficam entre 20 e 30km, a serem percorridos em circuitos de pelo
menos 4km. As Maratonas possuem de 50 a 120km. Muitas provas possuem
distâncias menores, mas há rígidas especificações
impostas pela UCI para provas oficiais. Há também as ultra-maratonas,
como as famosíssimas Cape Epic, na África do Sul, a Trans
Alp Challenge, que cruza vários países na Europa e a La
Ruta de los Conquistadores, na Costa Rica. Estas duram vários
dias, e exigem o máximo do competidor e seu staff.
Técnicas diferenciadas
Ambas as modalidades exigem técnicas e abordagens
diferentes do piloto. No XCO, o simples fato de saber que irá
passar pelos mesmos pontos várias vezes faz com que o biker precise
analisar cada circunstância volta a volta, estabalecendo os melhores
(e piores) pontos para ultrapassagens e a melhor maneira de encarar
subidas e descidas. Há também o congestionamento da pista,
provocado por ciclistas mais lentos, que acabam atuando como dificuldade
adicional. O cansaço físico e mental aparece por conta
das repetidas passagens por trechos difíceis, exigindo do biker
uma grande determiniação para completar as voltas do circuito.
No XCM, a dificuldade está na distância
a ser percorrida. Não há mais o típico stress do
XCO, provocado por repetidas exposições às mesmas
situações de dificuldade. Em contrapartida, o desconhecimento
do terreno e as longas distâncias atuam como fatores que comprometem
o rendimento do biker. É necessária uma boa resistência
física, aliada ao grande controle mental para percorrer várias
dezenas de kilômetros em ritmo forte, às vezes absolutamente
sozinho. Além disso, o ciclista precisa ser auto-suficiente,
pois em muitas ocasiões estará bem distante de socorro.
Isso exige um bom conhecimento de mecânica, além de provisões
de água ou isotônicos e alimentos como barras energéticas.
Em trajetos realmente longos (acima de 100km), pode ser recomendável
o conhecimento de leitura de mapas ou GPS.
Equipamentos
O XCO exige apenas os itens básicos do MTB:
Uma bike leve e confiável e os equipamentos de segurança
normais (luvas, óculos e capacete). Em competições
de XCO sempre há uma “área de apoio” definida
pela organização, onde o competidor pode receber auxílios
de nutrição (água e alimentos) ou mecânicos.
Assim, ele não precisa levar nada consigo no decorrer da prova.
Já o XCM exige que o atleta leve seu próprio
suporte técnico, pois muitas vezes estará isolado e distante
de qualquer possibilidade de auxílio. Assim, se faz necessário
o transporte de caramanholas de água ou bolsas de hidratação,
além de provisões rápidas, ferramentas e câmaras
de ar de reserva.
Um kit básico de ferramentas para longas distâncias
deve conter:
- 1 ou 2 câmaras de ar de reserva ou kit de remendos
- Bomba de ar pequena ou cilindro de CO2
- Chave de corrente
- Chave de raio
- 2 ou 3 raios de reserva (podem ser fixados no tubo do canote com fita
adesiva)
- Kit de chaves Allen
- Pequeno frasco plástico com óleo de corrente (frascos
de colírio ou de novalgina são ótimos)
As bikes
As bikes para XCO são muito leves e normalmente possuem apenas
suspensão dianteira. O quadro, rodas e demais peças são
leves, porém resistentes e confiáveis dentro de certos
parâmetros. Os pneus e suas pressões de ar variam de acordo
com o terreno do circuito, embora muitas vezes haja uma mistura de situações
bem diferentes, exigindo o uso de pneus polivalentes.
As bikes para XCM devem ser mais robustas, embora também
bastante leves. O uso de suspensão traseira pode trazer resultados
ao diminuir os impactos do terreno sobre o corpo do ciclista, e isso
em uma grande distância pode fazer a diferença. Em subidas
longas, a suspensão traseira também pode auxiliar ao aumentar
a tração, desde que devidamente regulada para o peso do
piloto e o tipo de terreno. As peças devem ser mais fortes, para
evitar riscos de quebra no trajeto. Os pneus devem permitir uma rodagem
mais solta, e como a maioria das provas de XCM é feita em estradões
(pelo menos no Brasil), o uso de pneus com cravos mais baixos é
recomendável, assim como pressões de ar maiores. Com baixa
pressão, os pneus tendem a agarrar mais ao solo, fazendo com
que o atleta se desgaste mais, principalmente em solo pesado (úmido).
Boas regras do XCM
Muitas vezes, longos trajetos de XCM passam por
dentro de propriedades privadas, ou atravessam lugarejos e rodovias.
É sempre bom seguir algumas recomendações, para
evitar problemas ou que moradores locais nos vejam com antipatia:
- Sempre peça permissão antes de entrar
em propriedades privadas.
- Sempre mantenha as porteiras fechadas.
- Não beba água de rios e riachos, pois
pode haver contaminação não visível, principalmente
em áreas agrícolas. Se precisar de água em ambientes
remotos, procure nascentes menos expostas.
- Cumprimente os moradores locais. Um simples “Olá”
pode fazer milagres.
- Evite fazer longos percursos sozinho. Se estiver em
uma competição, você está, de certa forma,
protegido pela estrutura de apoio da organização, mas
em pedais normais, você está completamente indefeso.
- Evite exigir demais da sua condição
física.
- Cuidado ao atravessar ou percorrer rodovias em trajetos
longos. Seu corpo estará cansado, e suas percepções
sensoriais não estarão funcionando na totalidade. Fique
atento ao trânsito de veículos, e mantenha-se sempre na
mão do fluxo.
- Mantenha a manutenção da sua sua bike
sempre impecável. Não espere uma peça apresentar
sinais acentuados de desgaste, principalmente pneus, corrente, coroas,
cassete, rolamentos e cabos de freios ou marchas.
- Não perturbe o ambiente: Seja cortês
com os habitentes locais, não destrue recursos de irrigação
(mangueiras, cursos d´água, etc) e não perturbe
a vida animal ou vegetal.
- Procure fazer com que os ciclistas sejam sempre
bem vistos e queridos pela população local. Só
assim é possível manter as vias de acesso sempre abertas
a nós.
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