Empresas oferecem vestiário e lugar para
guardar bicicleta; opção representa só 0,8% das
viagens
por: Marcio Pinho
Ir ao trabalho ou à faculdade de bicicleta
é um desafio em São Paulo. Não apenas pelas longas
distâncias e avenidas perigosas, mas porque ninguém gosta
de trabalhar suado. Isso já não é um empecilho
para todos que se aventuram em duas rodas, já que empresas estão
oferecendo vestiários, armários e lugares para guardar
a bicicleta.
Uma delas, a Auto-Peças Castro, no Ipiranga (zona sul), construiu
um vestiário especificamente para o diretor de informática
Sérgio Affonso, 39. Agora, após pedalar 15 km desde São
Bernardo do Campo (ABC paulista), ele tem chuveiro e água quente.
"Dá para trabalhar mais relaxado", diz.
O trajeto feito por Affonso é um dos 310 mil deslocamentos de
bicicleta que acontecem diariamente na Grande SP, segundo a pesquisa
Origem e Destino de 2007, do Metrô. O número quase dobrou
em dez anos.
Contudo, a bicicleta ainda representa apenas 0,8% do total das viagens.
Já no número de vítimas fatais do trânsito,
os ciclistas são 4% dos mortos -foram 61 em 2009 na capital.
Apesar do perigo, as vantagens são muitas. A possibilidade de
fazer exercício, de fugir do trânsito, não poluir
e de economizar entusiasmam ciclistas e as empresas onde trabalham.
Na Ultra, um vestiário que já existia dentro de uma academia
usada por funcionários foi oferecida sem custos aos que vão
trabalhar de bicicleta.
Ricardo Caielli, 44, analista de suporte, comemorou. Era o que faltava
para deixar o carro em casa. Até porque levava uma hora e vinte
minutos; de bicicleta, economiza 10 minutos.
Diferentemente de dar uma voltinha de bicicleta no parque Ibirapuera,
usá-la como meio de transporte em uma cidade onde quase não
há ciclovias requer truques. Cada ciclista desenvolve suas "manhas"
para fazer uma viagem tranquila.
Uma das dicas de Sérgio Affonso, que é presidente da associação
Amigos da Bike, é escolher ruas menos movimentadas, onde não
passem ônibus.
Isso significa parar seguidamente nos cruzamentos.
Em alguns trechos, contudo, não tem jeito e é preciso
buscar vias de maior tráfego. É o que acontece com o designer
gráfico Flávio Doin. "Procuro ficar do lado esquerdo,
oposto a onde passam os ônibus, porque acho mais seguro",
afirma Doin que trabalha na zona oeste.
Ciclovias da cidade são utilizadas
para o lazer
Pistas ainda não despontam como forma de ir ao
trabalho
As ciclovias em São Paulo são poucas,
têm problemas a serem resolvidos e servem mais para o lazer do
que como meio de ir ao trabalho ou à escola. É o que opinam
cicloativistas entrevistados pela Folha.
O problema começa com a escassez de opções. A cidade
possui apenas 19 km de ciclovias fora de parques, segundo a Secretaria
Municipal do Verde.
O órgão inclui nessa conta a ciclovia da Radial Leste
(12 km) -falta entregar um trecho de 2 km que fica justamente no meio
do percurso-, 1,8 km na Estrada de Colônia, no extremo sul, e
7 km na av. Inajar de Souza (zona norte), que ainda precisa ser concluída
e sinalizada, apesar de já ser usada.
A cidade tem ainda 14 km de ciclovia da marginal Pinheiros, administrada
pela CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), onde há
um acesso na Vila Olímpia e outros dois na outra ponta.
"É uma ciclovia que acaba sendo usada para o lazer porque
o usuário que quer sair no meio não consegue", diz
André Pasqualini, diretor do Instituto CicloBR. Outro problema
é o fato de ela fechar às 18h. Já a da avenida
Radial Leste, para no Tatuapé e não vai até o centro,
o que exclui muitos trabalhadores, opina.
Para Pasqualini, a cidade sofre pela falta de conhecimento técnico
para planejar uma ciclovia. "Sinto que existe uma boa vontade de
autoridades, mas não se sabe como desenvolver, pensar, planejar.
As ciclovias de hoje são adaptações de calçadas,
de pistas que existiam, aproveitadas de modo a não incomodar
os carros", diz.
Para William Cruz, do site Vá de Bike, a falta de interesse em
se fazer uma cidade amiga da bicicleta reflete o comportamento da população.
"As ciclovias protegem o ciclista. Porém, acabam reforçando
a ideia de alguns de que lá é o lugar da bicicleta, e
que a rua é só deles", afirma Cruz.
Segundo a prefeitura, serão implantados até 2012 100 km
de ciclovias e ciclofaixas -essas não têm separação
física entre carros e bicicletas.
fonte: folhauol
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