Nos últimos 25 anos, a indústria
de alimentos nos Estados Unidos tem alterado o tipo de açúcar
utilizado na fabricação de seus produtos
Por Dra. Ellen Simone Paiva e Dra. Amanda Epifânio,
endocrinologista e nutricionista do Citen.
É notória a nossa impossibilidade
de consumir apenas alimentos naturais. Este é um caminho sem
volta, marcado pela intensa participação feminina no mercado
de trabalho, onde a falta de tempo é a regra geral. Assim, todos
os dias, incorporamos às refeições um novo produto
industrializado, prático, barato e muito saboroso.
Sempre preparado longe das nossas cozinhas e com ingredientes
descritos em rótulos com letras miúdas e de difícil
compreensão. Realmente, precisamos nos entender com a indústria
de alimentos e com seus rótulos nutricionais, uma vez que ela
passou a produzir o nosso alimento diário.
Por conta da insegurança quanto ao que consumimos
e devido a necessidade de saber o que pode nos fazer bem ou mal, temos
alcançado, juntamente com os órgãos de vigilância
sanitária, alguns avanços na legislação
que obriga a indústria a informar com maior clareza e precisão
vários ingredientes utilizados no preparo dos alimentos.
Assim, já sabemos quanto de sódio, gordura
saturada e hidrogenada contém cada item que colocamos em nosso
carrinho de compras. Entretanto, um ingrediente tem chamado a nossa
atenção, nos últimos anos, pela pouca informação:
o açúcar. Apesar da obrigatoriedade da discriminação
do total de açúcar nos rótulos dos alimentos, não
sabemos ainda que tipo de açúcar é esse.
Nos últimos 25 anos, a indústria de alimentos
nos Estados Unidos tem alterado o tipo de açúcar utilizado
na fabricação de seus produtos. O bom e velho açúcar
refinado e cristal, proveniente da cana de açúcar ou da
beterraba, perdeu seu espaço, cedeu lugar a um produto que a
indústria chama de “xarope de milho rico em frutose”,
cuja sigla em inglês – HFCS – é muito conhecida
dos profissionais de Nutrição e dos engenheiros de alimentos.
Pois bem, esse xarope é mais barato, mais doce,
mais solúvel nos alimentos e de mais fácil estocagem que
o açúcar tradicional. Além disso, ele tem um poder
adoçante maior do que do açúcar, podendo ser utilizado
em quantidades proporcionalmente menores para alcançar um mesmo
poder adoçante. Com todos esses atributos, é fácil
compreender o porquê ele desbancou a sacarose em praticamente
todos os segmentos dos alimentos industrializados na América
do Norte.
No Brasil e na Europa, a sacarose, proveniente da cana
de açúcar, ainda mantém seu espaço e continua
sendo o açúcar preferencialmente utilizado pela indústria
para adoçar seus alimentos, pois nesses locais, ele é
mais barato do que a frutose.
A frutose, presente no xarope utilizado para adoçar
os alimentos, é o mesmo açúcar encontrado nas frutas.
Mas o fato preocupante é que a concentração desse
açúcar é tão elevada na maioria dos produtos
industrializados que é impossível não exceder às
recomendações diárias de consumo dessa forma de
carboidratos.
Nos Estados Unidos, o consumo médio de açúcar
representa de 25 a 30% do total calórico ingerido diariamente,
ultrapassando em muito os 7% recomendados para uma dieta saudável.
Quase todo esse açúcar é adicionado
aos alimentos sob a forma de xarope de frutose. Atualmente, quase tudo
que se fabrica em termos alimentares nos Estados Unidos tem lá
sua parcela de xarope de milho rico em frutose. Os refrigerantes, pães,
bolos, mufins, molhos como os de tomate, sucos de frutas e de soja,
cervejas, iogurtes, cereais matinais e barras de cereais, tortas doces
e sobremesas, hambúrgueres e até as sopas industrializadas.
Relação entre açúcar
e obesidade
A coincidência do aumento dos casos de obesidade,
principalmente entre crianças e adolescentes, nos Estados Unidos,
com a opção da indústria de comercializar alimentos
ricos em frutose, tem chamado a atenção de grande parte
dos estudiosos de Nutrição para a possibilidade de causa
e efeito entre eles.
Aparentemente, a frutose age no fígado aumentando
a produção de gorduras chamadas triglicérides,
que inunda esse órgão e chega em grande quantidade à
corrente sanguínea.
Assim, consumir comidas e bebidas batizadas com HFCS
equivale a comer uma refeição altamente gordurosa. Ao
fazer isso, não apenas ingerimos mais calorias, como também
armazenamos mais dessas calorias sob a forma de gorduras.
Isso também ocorre, sem dúvida, quando
consumimos açúcar da cana e beterraba, em grandes quantidades,
mas com o HFCS da indústria americana, as alterações
no peso corporal têm sido muito mais intensas, provavelmente devido
ao maior teor de frutose concentrada no xarope.
O problema em potencial é muito maior, os relatos
dão conta de que esse tipo de açúcar poderia estar
relacionado com a epidemia de esteatose hepática (fígado
gorduroso) e diabetes relacionada a uma maior resistência à
ação da insulina.
Isso poderia ocorrer pela ação específica
desse tipo de açúcar utilizado no preparo dos alimentos,
mas, com certeza, pode ocorrer também devido ao grande volume
de açúcar, ingerido em idades a cada dia mais precoces,
conferindo a essas crianças grande quantidade calórica
de açúcares de absorção rápida.
Quando a indústria de alimentos desenvolveu a
gordura trans ou hidrogenada, ela também era mais barata e mais
prática, do ponto de vista de estocagem e durabilidade dos alimentos,
conferia, ainda, uma aparência saudável aos alimentos e
melhorava o seu sabor.
Este tipo de gordura também foi desenvolvido com a boa intenção
de substituir a deletéria gordura saturada.
Demorou muito para descobrirmos e convencermos os órgãos
de vigilância sanitária e a própria indústria
de que a gordura trans era muito mais perigosa do que a gordura saturada,
sendo responsável pelo aumento considerável do risco cardiovascular
de seus consumidores.
Agora, levanta-se a possibilidade de estarmos diante
de um fato semelhante com os açúcares. Podemos estar ingerindo
não apenas açúcar demais, mas açúcares
do mau.
Que tipo de açúcar você consome?
Apesar da rotulagem dos alimentos vir melhorando muito nos últimos
anos, é importante que se defina para os açúcares
a mesma regra definida para as gorduras: os rótulos de todos
os alimentos devem descrever quais açúcares foram utilizados
no preparo dos mesmos.
Isso nos ajudará a entender melhor a relação
entre o consumo de açúcar e as doenças crônicas
no Brasil, que, a cada ano, alcançam pessoas de faixas etárias
mais precoces. Com esta informação em mãos, poderíamos,inclusive,
propor a redução do consumo de alimentos industrializados,
principalmente por crianças.
Fonte: ativo.com
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