por: Michel Mera
Ilhabela é o único município-arquipélago
marinho do Brasil e sua ilha principal, Ilha de São Sebastião,
possui um relevo bem acidentado, com pontos culminantes de até
1379 metros. O arquipélago tem área superior à
340 km². A vegetação predominante é a Mata
Atlântica e ainda está bem preservada. São 36 km
de praias, sendo algumas acessíveis apenas por mar. As cachoeiras
são abundantes. Suas características e belezas naturais
são um convite para a prática de esportes náuticos
ou de aventura. A região ainda reserva um bom número de
histórias, mistérios e lendas envolvendo piratas, escravos,
naufrágios, almas penadas e discos voadores. Entre os naufrágios
ocorridos em Ilhabela está o maior da América do Sul –
O transatlântico espanhol Príncipe de Astúrias naufragou
em março de 1916 tirando a vida de 477 pessoas.
Para o leitor que quiser se aprofundar sobre as histórias
do arquipélago, ou sobre os naufrágios, pode encontrar
maiores informações nos livros "Ilhabela - Seus Enigmas"
de Jeannis Michael Platon e "Príncipe de Astúrias"
de José Carlos Silvares e Luiz Felipe Heide Aranha Moura.
A viagem até São Sebastião
Eu e uma amiga partimos bem cedo de Campinas. De carro,
com as bicicletas amarradas no suporte e equipamento de camping no porta-malas,
seguimos pela rodovia D. Pedro I. Até Jacareí foram 135
km, incluindo um pedágio no município de Itatiba. Os 23
km seguintes foram pela rodovia Carvalho Pinto, passando por mais um
pedágio. Até este ponto o caminho foi tranquilo devido
as ótimas condições das duas rodovias, fazendo
valer os pedágios pagos. Continuamos a viagem, agora acompanhados
pelo carro de outro amigo, pela rodovia dos Tamoios, estrada com poucos
pontos de ultrapassagem e de mão-dupla. Não há
nenhum pedágio nos 75 km até Caraguatatuba entretanto
as condições da via não eram tão boas quanto
as encontradas nas rodovias anteriores. Os últimos 25 km seguimos
pela Rio-Santos, até São Sebastião, onde faríamos
a travessia de balsa, até Ilhabela.
Vencendo o medo
Meu primeiro desafio do passeio foi antes mesmo de começar
a trilha, já na travessia da balsa, pois tenho fobia de grandes
concentrações de água. Os minutos de espera pela
balsa foram tensos. Eu procurava me acalmar mas experimentava um sentimento
misto, de ansiedade e medo. Iniciado o embarque, respirei fundo e conduzi
o carro até o local indicado para o estacionamento. Procurei
me distrair, conversando com os amigos, o que me ajudou muito.
Preparativos
Chegamos em Ilha Bela e nos dirigimos para o camping.
Já no camping, começamos os preparativos para a trilha:
equipamentos de proteção, protetor solar, lanche, água
potável, anti-histamínico - é, além do medo
de água ainda enfrentaria um dos meus maiores inimigos, o borrachudo.
Quando criança já precisei ir ao hospital devido a uma
reação alérgica à picada deste inseto, abundante
em algumas regiões do litoral paulista.
Força, amigo!
Com as bicicletas à postos, partimos em direção
à Castelhanos, praia do lado leste da ilha. A estrada é
de terra e bem arborizada, o que impedia os raios solares de alcançarem
o solo, deixando-o bem úmido. O primeiro trecho é uma
subida contínua, chegando a pouco mais de 700m acima do nível
do mar. Na portaria do parque estadual de Ilhabela, ainda no começo
da estrada, fizemos uma pausa para tirar algumas fotos, fazer um pouco
mais de alongamentos e abastecer as caramanholas. O trânsito de
veículos motorizados na estrada é bem pequeno. Não
é qualquer carro ou motorista que consegue transpor todos os
obstáculos encontrados ao longo do percurso. A subida foi relativamente
tranquila, sem contratempos, afinal, todos ainda estavam com muita energia.
Hora do Downhill
Superado o trecho de aclive chegou a vez do downhill.
O começo da descida foi bem divertido, com muita velocidade.
As curvas e barrancos começaram a exigir um controle maior da
velocidade das bicicletas. A grande quantidade de lama, buracos, pedras,
e o receio de veículos no sentido contrário começaram
a nos exigir uma atenção maior ainda. Logo as mãos,
punhos, braços, ombros e pescoço começaram a doer,
devido ao esforço contínuo de acionamento dos freios e
à tensão causada pela dificuldade da trilha. A única
coisa que eu desejava no momento era um freio a disco.
Apesar de desgastante estávamos curtindo bastante
a descida, quando de repente surge um grito do nada: "SAI DA FREEEEENTE!".
Com um pedido tão educado, retirei-me para o canto da estrada,
e então passou um vulto, vestido de ciclista, um Downhiller.
Passado o susto, continuamos a descida por locais onde até um
jipe tinha dificuldades de passar. Um pouco mais à frente cruzamos
com uma pick-up. Dentro dela estavam: o motorista e o downhiller que
tinha passado por nós. O downhiller estava com o equipamento
de proteção completo, de dar inveja a qualquer cavaleiro
medieval. Na caçamba da camihonete ... uma bela máquina
de duas rodas. Continuamos nossa descida e não demorou muito
para o silêncio ser quebrado novamente: " A FREEEEENTE!".
Lá se vai o downhiller descida a baixo, mais uma vez.
Finalmente chegamos ao final da descida. Nossa próxima
tarefa: atravessar um rio raso, de água cristalina e gelada,
e com fundo preenchido de pedras lisas. Na outra margem estava um grupo
de cavaleiros. A tentação de atravessar o rio pedalando
foi tão grande que não resistimos. Pegamos um bom embalo
e entramos no rio. No meio da travessia os pedais estavam submersos
e pedalar nesta situação exigia um esforço muito
grande. Não tinha como continuar, então a outra metade
do rio foi transposta com a bicicleta no ombro. Pelo menos ninguém
caiu. Depois de conversar um pouco com os cavaleiros, seguimos o passeio.
Foi então que encontramos uma poça de água da chuva,
enorme. "Desviar pra quê?", pensamos. Passamos por dentro
dela em alta velocidade, indo parar lama até dentro da orelha.
Enfim, Castelhanos

Imagem da baía de Castelhanos, retirada
do site Kitesurf Mania
Chegamos! A paisagem era fantástica e nos fez
esquecer que ainda teríamos que enfrentar o esforço do
retorno. Um quiosque de sapê, no meio da praia, nos forneceu abrigo
contra o sol. É claro que não poderia faltar um bom banho
no mar, até porque precisávamos tirar todo aquele barro
do corpo. Ainda vislumbrados pela beleza da região, fomos recebidos
para um banquete, pelo menos para os borrachudos. Eles estavam se deliciando
com nosso sangue e nos lembravam que estava na hora de partir. Infelizmente
não tivemos tempo de explorar toda a praia, que merecia pelo
menos um dia inteiro.
Subida a pé
Estávamos ainda no início do retorno quando
escorreguei com o pneu da frente em uma pedra. Não consegui desencaixar
a sapatilha do pedal e levei um tombo. Ainda no chão, tentava
desencaixar a sapatilha mas não conseguia. Eu usava um modelo
de pedal de encaixe da Shimano que era muito fechado e acumulava muita
lama. O resultado não podia ser outro, tinha tanta lama acumulada
que o sistema de desencaixe travou. Só consegui me levantar após
ter recebido a ajuda de minha amiga para desencaixar a sapatilha. A
queda me deixou com a coxa um pouco dolorida, mas só.
Pouco tempo depois foi a vez da minha amiga. Após
o pneu traseiro girar em falso sobre uma pedra lisa, a bicicleta escorregou
de lado, levando-a de encontro ao chão. A queda foi severa com
ela e deixou várias escoriações na perna e muitas
pedrinhas cravadas no joelho. Com o joelho doendo muito, ela não
conseguia mais pedalar. Tivemos que fazer a subida a pé. Nesse
momento já não tínhamos mais contato visual com
o 3º integrante pois ele tinha ido na frente. Foram pouco mais
de 10 km de subida a pé e empurrando a bicicleta, em terreno
enlameado e com muita pedra. Tivemos que parar por vários momentos
por causa das dores que a minha amiga estava sentindo. O odômetro
da bicicleta progredia muito devagar e o desânimo, muito depressa.
A situação ainda estava piorando, estava esfriando, a
fome começava a ficar intensa e o cansaço não nos
dava trégua. Nosso objetivo principal era terminar a subida pois
poderíamos fazer a descida montados na bicicleta, visto que a
amiga não precisaria pedalar. Muito tempo depois conseguimos
alcançar o final da subida e re-encontrar o nosso amigo. A conclusão
da subida foi muito comemorada, precipitadamente.
Descida a pé
Explicado todos os acontecimentos para o amigo e aliviados
por ter conseguido alcançar o topo da trilha, apressamo-nos a
iniciar a descida. E então uma nova descoberta exauriu por completo
nossos ânimos. Meus freios não funcionavam mais. As sapatas
tinham sido integralmente consumidas na descida anterior – O desgaste
havia sido acelerado pela grande quantidade de lama. Sem freios, só
tinha uma coisa a fazer, descer a pé. Depois de ter feito mais
de 10 km de subida a pé e empurrando a bicicleta eu não
conseguia acreditar que teria que fazer mais 10 km de descida, também
a pé. E o pior de tudo é que já estava escurecendo.
Não tínhamos levado farol ou lanterna pois saímos
muito cedo e prevíamos um retorno antes do entardecer. Minha
cabeça era inundada por um único pensamento: "O que
estou fazendo aqui?".
Antes que o pânico tomasse conta de nós
tivemos que pensar em um plano emergencial. Decidimos que o Amigo seguiria
de bicicleta, sozinho, para buscar o carro e nos resgatar. Eu desceria
a pé e a Amiga me acompanharia de bicicleta. Plano em ação,
logo a escuridão tomou conta de tudo e não enxergávamos
além do próprio passo. Estávamos sozinhos, em uma
ilha, numa região erma, cercados de Mata Atlântica por
todos os lados. Apreensivos, os sentidos começaram a funcionar
melhor, ou pior. Começamos a enxergar e escutar coisas estranhas.
Num lugar com tantos mistérios começamos a acreditar que
tudo era possível. Tornou-se difícil identificar o que
era real e o que era imaginário. A passos largos, tropeçando
no escuro e sem saber o que nos rodeava, chegamos à portaria
do parque. Vimos faróis em nossa direção mas ainda
estávamos apreensivos. Não tínhamos mais forças
para nenhuma nova surpresa. Em dúvida se aquilo seria nosso resgate
ou nossa perdição resolvemos arriscar e nos aproximamos
do veículo. Ainda um pouco incrédulos e eufóricos
reconhecemos o João, já com o carro para nos resgatar.
Basta por hoje
Enfim ... o camping. Preparamos um macarrão semipronto,
com o sabor incrementado absurdamente pela fome que sentíamos.
O banho de água morna em box de concreto parecia uma hidromassagem
de um hotel 5 estrelas. O chão da barraca – frio, duro,
irregular – não nos impediu de ter uma noite sensacional.
Nunca tive tanto prazer em saciar necessidades tão básicas.
Depois de tanto sofrimento, uma pessoa normal
ficaria um bom tempo no conforto da civilização, mas não
foi o nosso caso. Uma semana depois já estávamos planejando
a aventura seguinte, mas não antes de comprar um bom freio com
sapatas reserva para ambiente molhado e de trocar meu pedal Shimano
por um Time.
fonte: bikersbrasil
topo