por: Mauricio Dehò
A equipe de ciclismo Scott/Marcondes César,
de São José dos Campos (SP), começou a temporada
com boas notícias, sendo a primeira do país a conseguir
a licença da categoria profissional continental (Pro Continental),
que dá acesso à elite da modalidade. No entanto, após
sua estreia na Europa, o cenário é de polêmica.
Ciclistas e integrantes do time alegam estar com salários atrasados,
chegando a cinco meses sem receber para competir.
OS LADOS DA POLÊMICA
Não tem nenhum membro da equipe sem problemas. Há massagista
sem receber, dívidas a serem quitadas pela equipe com os ciclistas.
Os pagamentos não estão em dia, inclusive o meu diz LUCIANO
PAGLIARINI, sobre seu protesto ao não correr o Campeonato Brasileiro.
Dois dos patrocinadores saíram e isso deixou um prejuízo
grande. Temos uma solução sendo proposta e sexta-feira
estaremos resolvendo os problemas pendentes diz CARLINHOS, dono da equipe
Scott.
O problema foi escancarado por Luciano Pagliarini, veterano ciclista
que passou mais de uma década na Europa e retornou no último
ano ao Brasil. Com a licença dada pela União Ciclística
Internacional à Scott, ele passou a integrar no time, com a esperança
de levar o Brasil a um novo patamar fora do país. No entanto,
com a alegação de não estar recebendo em dia, protestou
ao não participar do Campeonato Brasileiro, em julho.
"Não tem nenhum membro da equipe sem problemas.
Há massagista sem receber, dívidas a serem quitadas por
parte da equipe, problemas com seguro de vida e de saúde que
foram combinados em novembro, quando negociamos", detalhou o paranaense,
em entrevista ao UOL Esporte. "Os pagamentos não estão
em dia, inclusive o meu."
Como resultado da acusação, no protesto
feito sozinho, Pagliarini não tem sido chamado para as competições.
Outros ciclistas e até um mecânico deixaram o time comandado
por José Carlos Monteiro, o Carlinhos. É o caso de Tiego
Gasparotto, que recentemente conseguiu um acordo para deixar o time
e fechar com a equipe de Pindamonhangaba.
"Faz cerca de duas semanas que saí, e o
problema é o de sempre, a questão de salários.
Não é só comigo, todos sofrem em relação
a isso. Eu estava no limite, há cinco meses sem receber. [O Carlinhos]
vai prometendo e você vai relevando, o problema é o salário,
porque de estrutura e material a Scott ainda é a melhor",
disse o ciclista de 22 anos. "Tem gente que tem pai e mãe
que banque, mas quem não tem precisa. Foi uma coisa certa o que
o Luciano fez, mas não teve apoio da galera se reunir, porque
alguns não precisam tanto do dinheiro", completou.
Luciano Pagliarini protestou contra a equipe e
não
participou do Campeonato Brasileiro, em julho
O mecânico Evandro Souza Oliveira, que foi assistente técnico
de Carlinhos, ressalta um dos principais temores dos membros do time.
"Quando eles voltaram da Volta da Turquia, como estava tudo atrasado,
falei que ia sair. Mas a maioria tem medo de perder o emprego. A equipe
é profissional continental e, se saírem, podem ter de
ficar até o fim do ano sem pedalar se quiserem fechar com um
time deste nível", diz ele.
Evandro já foi às Olimpíadas com
a seleção e teve de defender outra equipe no Tour do Rio,
encerrado neste domingo. Ele trabalhou com a italiana Trevigiani, do
campeão Tomas Alberio. Agora aguarda novos contatos do time,
que deve retornar ao continente para disputar outras Voltas. "Esse
problema não é de hoje, o Carlinhos desde que tem a equipe
é enrolado com atletas", acusa o mecânico.
Em contato breve com a reportagem, Carlinhos afirmou
que o problema está sendo resolvido e colocou prazo até
sexta-feira para isso. Sem entrar no assunto, alegou que a insatisfação
no time se resume ao protesto de Pagliarini, mas admitiu dificuldades.
"Foi só o Pagliarini quem fez isso. Saíram
dois patrocinadores, por decisão deles mesmo, e isso deixou um
prejuízo muito grande. Temos uma solução sendo
proposta e sexta-feira estaremos resolvendo os problemas pendentes quanto
a isso", disse Carlinhos.
No entanto, toda a confusão pode custar a posição
de destaque que o time de São José dos Campos conquistou.
Segundo Pagliarini, ele e o italiano Jorge Giacinti, também competidor
do time, entraram em contato com a UCI para que o caso seja investigado.
Caso se prove a falta de pagamento, a permissão para que a Scott
participe de eventos internacionais pode ser bloqueada.
Na geladeira
Maior estrela do ciclismo brasileiro ao lado de Murilo
Fischer, que segue na Europa, Pagliarini está há um mês
sem competir devido ao protesto.
"Com tudo isso, o Carlinhos acabou me dando uma
gelada. Mas, como chegou aonde chegou, eu já esperava. Alguém
precisava fazer isso. Estou esperando que acerte comigo e me convoque,
porque estou pronto para competir", diz ele. "Meus 20 anos
de carreira não foram inventados, e ficar parado nessa situação
está moralmente me prejudicando, e muito".
"Espero que ele tome consciência dos atletas.
Estão todos na mão dele, porque não há para
onde correr. [O Carlinhos] parece ser cauteloso, mas age de má
fé com os atletas", acrescentou o ciclista. "Eu tenho
a felicidade de ter feito uma grande carreira na Europa e de ter outras
fontes de renda que decorreram disso. Nesse lance de salário,
tenho a sorte de não precisar dele neste momento. Mas desde o
início já vi atletas reclamando e percebi que ele estava
mal-intencionado."
Pagliarini ainda não cogita simplesmente
sair do time e afirma que espera uma resolução, indo inclusive
para a Justiça para tentar solucionar o caso, se for necessário.
SALÁRIOS POR UMA BIKE
Um dos ciclistas afetados pela crise na Scott, Tiego Gasparotto conseguiu
deixar o time para entrar na equipe de Pindamonhangaba. No entanto,
ainda não viu o dinheiro que alega ter a receber. Com isso, sobrou
a ele um acordo nada convencional. Enquanto espera pela quantia, a garantia
é uma bicicleta. Ele está com um equipamento em mãos
que dá uma pequena amostra do tamanho da dívida. Uma bicicleta
usada por ciclistas profissionais chega ao valor de R$ 14 mil, como
a que está com Tiego.
fonte: esporteuol.com.br
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