por: Lucas Pretto
Em um dos trechos da excelente e perturbadora autobiografia
de Andre Agassi, o tenista relata uma visita ao seu pai, que convalescia
no leito de um hospital. “Eu me aproximei da cama e tentei escutar
o que meu pai balbuciava. Depois de inoperantes tentativas, entreguei
uma caneta e um papel para que ele escrevesse o que talvez fossem suas
últimas palavras: ‘Bata no backhand dele’.”
O filho que via o pai morrendo acabara de perder uma final para Pete
Sampras.
Andre Agassi
Parece engraçada a passagem acima, mas, na verdade,
reflete uma triste realidade na relação entre pais obsessivos
pelo desempenho do filho e jovens atletas que lutam para se equilibrar
entre os desejos paternos e as dificuldades que o esporte competitivo
impõe.
A psicologia moderna trata o pai de duas maneiras, isto
é, o pai real – ou a maneira mais sólida sobre a
qual ela se apresenta – e o pai interno, que é aquela visão
de pai que guardamos dentro da nossa psique. Durante a carreira esportiva,
nós nos deparamos com inúmeras situações
onde o reforço positivo de um bom pai ou a certeza de que nossos
genitores nos darão amor independentemente do resultado que obtivermos
trarão calma e equilíbrio para alcançar não
apenas o resultado mas também paz e felicidade.
A história do relacionamento entre Andre Agassi
e seu pai é típica de um chefe de família que quer
fazer do filho motivo de seu orgulho e riqueza pessoal. Desde o início
do livro, Agassi deixa claro que detesta jogar tênis e sempre
detestou, pois no quintal da própria casa ele foi o terceiro
irmão que seu pai forçou a treinar rebatidas incessantes
contra uma máquina para se tornar número um do mundo.
Apesar de realmente conquistar o objetivo almejado, Agassi sofreu abalos
psicológicos e danos desnecessários pelo tratamento do
pai.
No triathlon como atleta e na natação
como treinador de crianças, já presenciei e me choquei
com todo o tipo de pais. Acredito que o papel da família seja
fundamental no apoio ao esporte, mas é importante ter claro que
papel é esse. Meu treinador costuma dizer que o simples fato
de o pai cronometrar o tempo do filho durante uma competição
já é uma forma de pressão. O ideal é que
os pais saibam responder duas perguntas: “Meu filho parece feliz?”
e “Estamos lhe oferecendo o melhor suporte possível para
que ele treine com qualidade?”. E basta.
Meus pais foram e são excelentes apoiadores durante
toda a minha carreira. A simples presença deles nas minhas competições
se torna um incentivo e uma responsabilidade sem que exista diálogo
ou cobrança, pois enxergo o atleta jovem como alguém que
já carrega o desejo de agradar algo dentro ou fora de si com
suas conquistas.
Então, caros pais e mães de esportistas,
escolham um bom profissional e deixem que os treinadores assumam o papel
necessário nas cobranças e planejamentos de seus atletinhas.
Na hora em que é dada a largada, a serenidade e a torcida são
tudo que lhe cabe como chefe de família.
fonte: prologo
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