por: Wagner Araújo
Quando comecei no triathlon, há pouco mais de 3 anos, eu jamais
cogitava a hipótese de raspar as penas. Passado alguns meses
e provas, me sentia um troglodita no meio das provas. Praticamente todo
mundo corria com as pernas raspadas e isso parecia ser um certo código
de conduta entre triatletas e ciclistas.
Sem entender o porquê, resolvi raspar as minhas
próprias penas pela primeira vez. Na verdade eu não estava
nem aí para o porquê, só queria tentar me parecer
mais com os atletas que chegam muito na minha frente. Para minha tristeza,
a primeira vez foi depilação com cera quente. Doeu. Como
doeu! Me tornei a atração do salão onde depilei,
pois meus gritos ecoavam em todos os cômodos.
O pior foram os dias que se sucederam. Minha esposa,
quase desmaiou de tanto rir quando saí do banho. Meus irmãos
ficaram olhando com aquele olhar de “hum… que coisa meiga….”
Meus amigos debocharam insistentemente. Certo tempo depois, todos se
acostumaram e agora eu não sou mais a atração da
família nas festas na piscina.
Com o tempo desisti da depilação, e agora
raspo com máquinas, que são mais práticas e doem
infinitamente menos. E desde então, sem pensar muito na razão
disso, faço esse pequeno ritual a cada 15 dias.
Lendo o livro de Lance Armstrong e Chris Carmichael
(Lance: Armstrong: Programa de Treinamento) esta semana, me deparei
com a questão da depilação novamente, o que abriu
meus pensamentos e me impeliu a descobrir aquele “porquê”.
No livro, Lance praticamente o obriga a raspar as pernas: se você
é ciclista, raspe as pernas! Ele também apresenta duas
razões bastante plausíveis.
A primeira é que limpar os ferimentos de uma
eventual queda no ciclismo com as pernas raspadas é infinitamente
mais fácil e menos doloroso (será que compensa a da depilação?)
Eu mesmo passei por isso no final de 2008, quando sofri uma queda forte
Long Distance em Pirassununga. Devo confessar que ter raspado ajudou
demais, inclusive na cicatrização mais rápida.
A segunda é que a massagem sem pelos é bem melhor para
você e para o massagista. Como Lance considera as massagens tão
importantes quanto os treinos (para mim o são também),
isso faz todo o sentido. Associado a isso temos a questão da
higiene pessoal, que é mais simples e rápida se você
estiver sem pelos. Mas, seriam essas razões suficientes para
me convencer há três anos atrás?
Refletindo sobre a questão e a minha trajetória
pessoal, vi que raspar as pernas significou uma espécie de rito
de passagem, onde eu firmei um compromisso com o esporte, algo como
“uau, agora sou triatleta de verdade e estou levando o esporte
a sério.” Esse sacrifício adicional, comparado aos
outros sacrifícios que um triatleta passa, é mínimo,
mas importante. E olha… me senti mais rápido sem os pelos,
muito mais rápido. Não sei se fiquei mais rápido,
mas senti já era meio caminho andando para isso.
Você pode argumentar que raspar as pernas vai
lhe dar uma vantagem aero e hidrodinâmica, mas será que
faz diferença? Não conheço nenhum estudo aprofundado
, mas acho que a diferença aerodinâmica seja muito pouco
significativa.
Na natação, se você disputasse os 50m ou os 100m
nas Olimpíadas, sem trajes tecnológicos, isso poderia
fazer diferença, mas não em provas acima de 1,5km no mar
e, usualmente, de roupa de neoprene. Meu amigo Luiz Francisco, o Chicão,
um dos melhores nadadores do triathlon nacional, afirma que sente um
pouco mais de sensibilidade na água, mas o atrito é realmente
irrelevante. Essa sensibilidade também pode ser percebida na
bike, onde suas pernas se refrescam mais.
No final das contas, o efeito psicológico talvez
seja o maior. Tudo que aumente sua confiança pode lhe ajudar
a obter um desempenho superior, a chegar onde você não
conseguia antes. Mais uma vez citando o grande Chicão, o efeito
“placebo” conta muito. Você vai parecer mais rápido
e melhor, o que pode o tornar realmente mais rápido e melhor.
Mais que um cuidado com o corpo, pense nisso como um cuidado para a
mente, para seu ego.
fonte: mundotri.com
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