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Jornalista explica iniciativa que foca mobilidade sustentável em centros urbanos

05/04/2011

para: Setor 3

Com capacete na cabeça e pernas dispostas a percorrer 12 países em um ano é a proposta da jornalista Natália Garcia. Idealizador do projeto Cidade para Pessoas, a jovem se propôs a visitar 12 cidades do mundo em um ano para coletar boas ideias de planejamento urbano. Sua viagem inicia no próximo dia 5/4 em Copenhagen e a próxima cidade será Amsterdan.

Aos 18 anos, ela ganhou um carro e iniciou sua experiência de locomoção pela cidade. Chegava a passar quatro horas por dia dentro do carro. Depois de sete anos, teve problemas cardíacos e engordou 10 quilos.

Sedentarismo e vida estressada. “Nessa época comecei a flertar com a possibilidade de me locomover de bicicleta pela cidade. Logo comprei uma bike dobrável, para poder levá-la dentro do metrô ou de um ônibus, e minha relação com a cidade mudou radicalmente”, recorda-se Natália.

Com a bicicleta, a jornalista notou que conhecia muito mais pessoas, mas era atingida pelos problemas da cidade, como trânsito, impermeabilidade do solo, poluição, entre outros fatores. Essa mudança a estimulou para estudar sobre os problemas da cidade e escrever sobre soluções viáveis.

No ano passado, a jovem participou do projeto !sso não é Normal!, um site encomendado pela Embaixada Britânica e veiculado no portal do Estadão, que relacionava os modelos urbanos de cidades brasileiras a mudanças climáticas.

Em uma das reportagens, Natália relatou soluções aplicadas em outras cidades que poderiam inspirar São Paulo. Uma delas foi a revitalização do centro de Melbourne (Austrália) com algumas medidas sugeridas pelo urbanista Jan Gehl. “Comecei a estudar o trabalho do Jan Gehl, que era de planejamento urbano com foco nas pessoas, não nos carros nem nos prédios. Achei fascinante. Nessa época comecei a pensar no Cidades para Pessoas: visitar 12 cidades durante um ano e morando por um mês em cada uma delas, que foram planejadas por Jan Gehl. Grande inspirador da iniciativa.”

No site da iniciativa, será possível acompanhar a jornalista que fará um conteúdo com licença Creative Commons, para que os textos possam ser utilizados por universidades e secretarias de planejamento, além de serem replicados livremente com a obrigação de citar a fonte. Também será editado um livro com o material coletado nessa caminhada.

Como percorrer essas cidades? Natalia encontrou saída pela prática de crowdfunding no site Catarse (catarse.me) – sistema que, ao invés de patrocínio de um grande investidor, uma multidão de pequenos financiadores compram contas que vão de R$ 20 a R$ 100 e recebem recompensas equivalentes.

“Cidade para Pessoas quer mudar aquele discurso do senso comum: para resolver São Paulo tem que ter mais metrô. Minha ideia é elevar a discussão sobre os problemas das cidades. Melhorar o debate mesmo, mostrando que a cidade é um organismo complexo que precisa ser entendido em todos os seus setores. Se cada um dos meus leitores deixarem, ao menos uma vez por semana, o carro em casa, já considero que será um grande ganho!”, espera Natalia Garcia.

Confira entrevista abaixo.

Portal Setor3- Tinha interesse em estudar o tema mobilidade e planejamento urbano? Para iniciar esse trabalho, com quais especialistas dialogou e como foi esse processo?

Natalia Garcia - O interesse nasceu da minha vida pessoal. Comecei a me locomover de bicicleta pela cidade e, um ano depois, optei pedalar durante minhas férias em Bogotá, capital da Colômbia, conhecido pela revolução em termos de mobilidade urbana. Passei um mês lá e fiquei impressionada com o modelo de desenvolvimento aplicado pelos prefeitos Antanas Mockus e Enrique Peñalosa, focado em restringir o uso de automóveis particulares e construir uma rede de ônibus interligada por corredores, conhecido como sistema de BRT, igual ao de Curitiba (PR). Há ainda ciclovias por toda a cidade, hoje são mais de 300 km de vias exclusivas.

Participar do projeto !sso não é Normal! também foi importantíssimo, porque amadureci minha visão sobre a cidade. Entendi que ela é um organismo complexo de atividades interligadas: é impossível pensar em mobilidade urbana sem incluir habitação, a relação com os rios e outros fatores. Nessa época, entrevistei diversos profissionais: o médico e o ambientalista Paulo Saldiva; o diretor da Rede Nossa São Paulo Oded Grajev; a subprefeita da Lapa, Soninha Francine; o diretor da TC Urbes, um escritório de planejamento urbano em São Paulo, Ricardo Corrêa; o engenheiro de pesquisas da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), Carlos Paiva; o jornalista especializado em mobilidade urbana, Thiago Guimarães; o ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa, e outros especialistas. Todas essas entrevistas colaboraram com minha visão sobre o debate de como melhorar as cidades e foram imprescindíveis para formatar o Cidades para Pessoas.

Portal Setor3- Por que viajar por diferentes cidades?

NG- Primeiro escolhi viajar para cidades que, por algum motivo, possam inspirar São Paulo. Seja por apresentarem soluções criativas, como Copenhagen, que criou o primeiro calçadão de pedestres. Seja pela semelhança geográfica com São Paulo, como Amsterdan, com uma enorme rede de rios e riachos. Cidades com características socioeconômicas parecidas com as paulistanas, como a Cidade do México. A ideia é me debruçar sobre cada uma delas para entender não apenas as soluções implantadas, mas seu processo de implantação. Analisar se os resultados de políticas de planejamento, ou se vieram de engajamento cívico. Acredito que as boas ideias irão melhorar o debate sobre as cidades, sempre tão pobre. Já reparou que, em qualquer debate informal sobre o tema, todo mundo conclui que precisa ter mais metrô, ou que hoje não dá pra viver sem carro em São Paulo, ou que andar de bicicleta aqui é coisa de maluco. São visões simplistas e setoriais da cidade, não consideram a cidade como organismo complexo.

Portal Setor3-De que forma conciliar jornalismo, desenvolvimento social e a prática de crowdfunding? E como essa prática pode ser interessante em comunicação?

NG- Imagine que incrível poder pagar pela reportagem que você quer ler, não pelo veículo que você vai comprar. Com o crowdfunding, isso é possível. Há um site americano chamado Spot.us, destinado apenas a financiar projetos jornalísticos por essa prática. Vejo várias vantagens em financiar um projeto jornalístico dessa maneira. Uma delas é que deixa de ser necessário estar vinculada a um grande veículo de imprensa para viabilizar um projeto financeiramente. Por outro lado, temos o problema da audiência, que se reduz muito em projetos independentes. Em contrapartida, muita gente tira dinheiro do próprio bolso para financiar um projeto e começa a criar uma comunidade em torno dele. Uma comunidade com interesses em comum, que só se encontrou graças à web. Essas pessoas quiseram se engajar naquela causa, um público importante de atingir em um projeto jornalístico.

Outro ponto interessante nessa prática é que o microfinanciamento atrai grandes financiadores para um modelo híbrido de viabilização de projetos. Por exemplo, eu levantei 25 mil reais, que é o equivalente a mais ou menos um terço do que preciso para realizar a viagem de um ano. O fato de ter alcançado essa meta fez com que grandes empresas me procurassem interessadas em investir o restante do dinheiro. Ainda não há nada fechado. Só estou mencionando para mostrar como esse movimento fez com que o risco de uma grande empresa investir no meu projeto diminuísse.

Portal Setor3- Contou com apoio de quais empresas? E órgãos governamentais? E setor de sociedade civil organizada? Qual será está apoiando mais?

NG- Algumas empresas compraram as cotas maiores no crowdfunding do projeto. Foram elas: Pedra Branca, ABCP, Movimento Nossa São Paulo e O Eco. Foram empresas que me procuraram para apoiar o projeto. Essa foi a parte mais interessante da história. Não fui atrás de nenhuma delas. O bacana das pessoas físicas que apoiaram foi o engajamento na campanha do crowdfunding. Todos os dias pessoas que nem conhecia divulgavam o projeto no twitter, no facebook, nas redes sociais em geral. Faziam campanha com os amigos, muito bonito ver esse movimento. Por enquanto, a sociedade civil é o setor que mais colabora. Não só por apoiaram meu projeto com dinheiro do próprio bolso, ou por terem feito campanha, mas por todos se envolveram e me ajudarem de alguma forma. Há um grupo de programadores fazendo o site, em que vou postar as notícias sobre a iniciativa. Uma designer está elaborando a identidade visual do site. Tudo gratuito, pelo prazer de se envolver com a causa de melhorar nossa cidade.

Portal Setor3- Como você inclui o tema de sustentabilidade no seu dia a dia? Como é a o lado Natália sustentável?

NG- Eu poderia dizer que ando de bicicleta, separo meu lixo, tomo banho rapidinho e outras coisas. Mas meu maior esforço é ter uma relação de consumo saudável. Procuro sempre comprar produtos locais, de manejo sustentável. Sempre tento consertar antes de comprar um novo. Procuro pensar se realmente vou usar tal produto, antes de comprá-lo. Acho que é nessa relação com o que consumimos que está embutida a nossa maior pegada ambiental. É nela que mais me esforço para controlar.
Serviço:

Cidade para Pessoas: http://cidadesparapessoas.com.br
Interessados em ajudar na iniciativa, podem entrar em contato diretamente com a jornalista pelo e-mail: nataliafgarcia@gmail.com

fonte: setor3.com.br

 

 

 

 

 

 

 


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