para: Setor 3
Com capacete na cabeça e pernas dispostas
a percorrer 12 países em um ano é a proposta da jornalista
Natália Garcia. Idealizador do projeto Cidade para Pessoas, a
jovem se propôs a visitar 12 cidades do mundo em um ano para coletar
boas ideias de planejamento urbano. Sua viagem inicia no próximo
dia 5/4 em Copenhagen e a próxima cidade será Amsterdan.
Aos 18 anos, ela ganhou um carro e iniciou sua experiência
de locomoção pela cidade. Chegava a passar quatro horas
por dia dentro do carro. Depois de sete anos, teve problemas cardíacos
e engordou 10 quilos.
Sedentarismo e vida estressada. “Nessa época comecei a
flertar com a possibilidade de me locomover de bicicleta pela cidade.
Logo comprei uma bike dobrável, para poder levá-la dentro
do metrô ou de um ônibus, e minha relação
com a cidade mudou radicalmente”, recorda-se Natália.
Com a bicicleta, a jornalista notou que conhecia muito
mais pessoas, mas era atingida pelos problemas da cidade, como trânsito,
impermeabilidade do solo, poluição, entre outros fatores.
Essa mudança a estimulou para estudar sobre os problemas da cidade
e escrever sobre soluções viáveis.
No ano passado, a jovem participou do projeto !sso não
é Normal!, um site encomendado pela Embaixada Britânica
e veiculado no portal do Estadão, que relacionava os modelos
urbanos de cidades brasileiras a mudanças climáticas.
Em uma das reportagens, Natália relatou soluções
aplicadas em outras cidades que poderiam inspirar São Paulo.
Uma delas foi a revitalização do centro de Melbourne (Austrália)
com algumas medidas sugeridas pelo urbanista Jan Gehl. “Comecei
a estudar o trabalho do Jan Gehl, que era de planejamento urbano com
foco nas pessoas, não nos carros nem nos prédios. Achei
fascinante. Nessa época comecei a pensar no Cidades para Pessoas:
visitar 12 cidades durante um ano e morando por um mês em cada
uma delas, que foram planejadas por Jan Gehl. Grande inspirador da iniciativa.”
No site da iniciativa, será possível acompanhar
a jornalista que fará um conteúdo com licença Creative
Commons, para que os textos possam ser utilizados por universidades
e secretarias de planejamento, além de serem replicados livremente
com a obrigação de citar a fonte. Também será
editado um livro com o material coletado nessa caminhada.
Como percorrer essas cidades? Natalia encontrou saída
pela prática de crowdfunding no site Catarse (catarse.me) –
sistema que, ao invés de patrocínio de um grande investidor,
uma multidão de pequenos financiadores compram contas que vão
de R$ 20 a R$ 100 e recebem recompensas equivalentes.
“Cidade para Pessoas quer mudar aquele discurso
do senso comum: para resolver São Paulo tem que ter mais metrô.
Minha ideia é elevar a discussão sobre os problemas das
cidades. Melhorar o debate mesmo, mostrando que a cidade é um
organismo complexo que precisa ser entendido em todos os seus setores.
Se cada um dos meus leitores deixarem, ao menos uma vez por semana,
o carro em casa, já considero que será um grande ganho!”,
espera Natalia Garcia.
Confira entrevista abaixo.
Portal Setor3- Tinha interesse em estudar o tema mobilidade
e planejamento urbano? Para iniciar esse trabalho, com quais especialistas
dialogou e como foi esse processo?
Natalia Garcia - O interesse nasceu da minha vida pessoal.
Comecei a me locomover de bicicleta pela cidade e, um ano depois, optei
pedalar durante minhas férias em Bogotá, capital da Colômbia,
conhecido pela revolução em termos de mobilidade urbana.
Passei um mês lá e fiquei impressionada com o modelo de
desenvolvimento aplicado pelos prefeitos Antanas Mockus e Enrique Peñalosa,
focado em restringir o uso de automóveis particulares e construir
uma rede de ônibus interligada por corredores, conhecido como
sistema de BRT, igual ao de Curitiba (PR). Há ainda ciclovias
por toda a cidade, hoje são mais de 300 km de vias exclusivas.
Participar do projeto !sso não é Normal!
também foi importantíssimo, porque amadureci minha visão
sobre a cidade. Entendi que ela é um organismo complexo de atividades
interligadas: é impossível pensar em mobilidade urbana
sem incluir habitação, a relação com os
rios e outros fatores. Nessa época, entrevistei diversos profissionais:
o médico e o ambientalista Paulo Saldiva; o diretor da Rede Nossa
São Paulo Oded Grajev; a subprefeita da Lapa, Soninha Francine;
o diretor da TC Urbes, um escritório de planejamento urbano em
São Paulo, Ricardo Corrêa; o engenheiro de pesquisas da
Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), Carlos Paiva; o jornalista
especializado em mobilidade urbana, Thiago Guimarães; o ex-prefeito
de Bogotá, Enrique Peñalosa, e outros especialistas. Todas
essas entrevistas colaboraram com minha visão sobre o debate
de como melhorar as cidades e foram imprescindíveis para formatar
o Cidades para Pessoas.
Portal Setor3- Por que viajar por diferentes cidades?
NG- Primeiro escolhi viajar para cidades que, por algum
motivo, possam inspirar São Paulo. Seja por apresentarem soluções
criativas, como Copenhagen, que criou o primeiro calçadão
de pedestres. Seja pela semelhança geográfica com São
Paulo, como Amsterdan, com uma enorme rede de rios e riachos. Cidades
com características socioeconômicas parecidas com as paulistanas,
como a Cidade do México. A ideia é me debruçar
sobre cada uma delas para entender não apenas as soluções
implantadas, mas seu processo de implantação. Analisar
se os resultados de políticas de planejamento, ou se vieram de
engajamento cívico. Acredito que as boas ideias irão melhorar
o debate sobre as cidades, sempre tão pobre. Já reparou
que, em qualquer debate informal sobre o tema, todo mundo conclui que
precisa ter mais metrô, ou que hoje não dá pra viver
sem carro em São Paulo, ou que andar de bicicleta aqui é
coisa de maluco. São visões simplistas e setoriais da
cidade, não consideram a cidade como organismo complexo.
Portal Setor3-De que forma conciliar jornalismo, desenvolvimento
social e a prática de crowdfunding? E como essa prática
pode ser interessante em comunicação?
NG- Imagine que incrível poder pagar pela reportagem
que você quer ler, não pelo veículo que você
vai comprar. Com o crowdfunding, isso é possível. Há
um site americano chamado Spot.us, destinado apenas a financiar projetos
jornalísticos por essa prática. Vejo várias vantagens
em financiar um projeto jornalístico dessa maneira. Uma delas
é que deixa de ser necessário estar vinculada a um grande
veículo de imprensa para viabilizar um projeto financeiramente.
Por outro lado, temos o problema da audiência, que se reduz muito
em projetos independentes. Em contrapartida, muita gente tira dinheiro
do próprio bolso para financiar um projeto e começa a
criar uma comunidade em torno dele. Uma comunidade com interesses em
comum, que só se encontrou graças à web. Essas
pessoas quiseram se engajar naquela causa, um público importante
de atingir em um projeto jornalístico.
Outro ponto interessante nessa prática é
que o microfinanciamento atrai grandes financiadores para um modelo
híbrido de viabilização de projetos. Por exemplo,
eu levantei 25 mil reais, que é o equivalente a mais ou menos
um terço do que preciso para realizar a viagem de um ano. O fato
de ter alcançado essa meta fez com que grandes empresas me procurassem
interessadas em investir o restante do dinheiro. Ainda não há
nada fechado. Só estou mencionando para mostrar como esse movimento
fez com que o risco de uma grande empresa investir no meu projeto diminuísse.
Portal Setor3- Contou com apoio de quais empresas? E
órgãos governamentais? E setor de sociedade civil organizada?
Qual será está apoiando mais?
NG- Algumas empresas compraram as cotas maiores no crowdfunding
do projeto. Foram elas: Pedra Branca, ABCP, Movimento Nossa São
Paulo e O Eco. Foram empresas que me procuraram para apoiar o projeto.
Essa foi a parte mais interessante da história. Não fui
atrás de nenhuma delas. O bacana das pessoas físicas que
apoiaram foi o engajamento na campanha do crowdfunding. Todos os dias
pessoas que nem conhecia divulgavam o projeto no twitter, no facebook,
nas redes sociais em geral. Faziam campanha com os amigos, muito bonito
ver esse movimento. Por enquanto, a sociedade civil é o setor
que mais colabora. Não só por apoiaram meu projeto com
dinheiro do próprio bolso, ou por terem feito campanha, mas por
todos se envolveram e me ajudarem de alguma forma. Há um grupo
de programadores fazendo o site, em que vou postar as notícias
sobre a iniciativa. Uma designer está elaborando a identidade
visual do site. Tudo gratuito, pelo prazer de se envolver com a causa
de melhorar nossa cidade.
Portal Setor3- Como você inclui o tema de sustentabilidade
no seu dia a dia? Como é a o lado Natália sustentável?
NG- Eu poderia dizer que ando de bicicleta, separo meu
lixo, tomo banho rapidinho e outras coisas. Mas meu maior esforço
é ter uma relação de consumo saudável. Procuro
sempre comprar produtos locais, de manejo sustentável. Sempre
tento consertar antes de comprar um novo. Procuro pensar se realmente
vou usar tal produto, antes de comprá-lo. Acho que é nessa
relação com o que consumimos que está embutida
a nossa maior pegada ambiental. É nela que mais me esforço
para controlar.
Serviço:
Cidade para Pessoas: http://cidadesparapessoas.com.br
Interessados em ajudar na iniciativa, podem entrar em contato diretamente
com a jornalista pelo e-mail: nataliafgarcia@gmail.com
fonte: setor3.com.br
topo