O pedal que atravessa trechos preservados de Mata
Atlântica na Serra do Mar e inusitados recantos do litoral paranaense
compensa algumas ladeiras inclementes com belas descidas como a da famosa
Estrada da Graciosa
Esta matéria faz parte da Edição
157 da Revista Aventura & Ação.
Texto: Fernando Angeoletto
Fotos: Eduardo Green e Jonatha Jünge/Caminhos do Sertão
Uma viagem de bicicleta entre a Serra do Mar e o Litoral
Paranaense pode ser feita de inúmeras maneiras, conciliando trechos
percorridos de trem ou de barco, optando-se pela facilidade de longos
trechos planos à beira-mar ou pelo perrengue de estradas pedregosas,
visitando cachoeiras ou cidades históricas.
Nesse caleidoscópico cardápio, nosso roteiro
montado para os dias de folia carnavalesca desse ano teve como ponto
de partida a cidade de Quatro Barras, a noroeste de Curitiba. Nessa
simpática cidadezinha, encontramos com facilidade um lugar para
deixar os carros; a Secretaria de Segurança Pública (mais
seguro, impossível). É bem melhor começar ali,
ao invés de Curitiba, pois evita-se um longo trecho urbano ou,
na pior das hipóteses, quase 40 quilômetros pela BR 116.
Saindo de Quatro Barras, em poucas pedaladas já
estamos numa variante da Estrada da Graciosa. Ao invés de atravessar
o famoso Portal da Graciosa, começamos a viagem por este trecho
alternativo. É o meio mais lógico para novamente evitar
a BR, além de ser um caminho bastante tranquilo e representativo
dos primeiros visuais de cair o queixo que nos aguardam na Serra.

Diversidade - Quando encerra o asfalto, o sopé
da Serra do Mar vira
sertão de pedras e paredões no rumo de Guaraqueçaba
Foto: Eduardo Green e Jonatha Jünge/Caminhos do Sertão
Se você tentar amenizar um pouco as coisas para convencer um amigo
ou namorada (como foi o nosso caso) a encarar a pedalada, fazendo propaganda
da descida nesta primeira etapa, vai ter que se explicar no caminho.
Antes de despencar Serra abaixo, esse ramal da Graciosa envereda-se
por uma passagem estreita, quase trilha, ladeira acima, um tanto pedregosa.
A recompensa é que a mata fechada é de beleza singular,
o chão é um imenso tapete florido e tudo isso sem a presença
de um carro sequer.
Logo chega-se à Graciosa tradicional, aquela
dos trechos em paralelepípedo (ou pavimento poliédrico,
como prefere a Wikipédia), dos sete recantos-paradouros (lugares
de lazer que dispõem de quiosques para venda de produtos típicos,
mirantes e churrasqueiras), do Rio Catira, da pamonha quentinha e da
cachaça de banana.
A estrada sinuosa é conhecida por conservar a construção
em pedra de 1854, que servia como rota para os tropeiros em direção
ao litoral do Estado, interligando Curitiba às cidades de Antonina
e Morretes. Além disso, a Graciosa corta o trecho mais preservado
de Mata Atlântica do Brasil, marcado pela mata tropical e pelos
belos riachos que nascem na Serra do Mar. Por isso, em 1993, parte do
trecho da Serra foi declarada pela UNESCO como Reserva da Biosfera da
Mata Atlântica. Para guardar tal riqueza, a região exibe
dois importantes parques estaduais: o Parque Estadual da Graciosa e
o Parque Estadual Roberto Ribas.
Como ameaçava chuva e a noite se aproximava,
optamos por não ceder aos encantos dos “paradouros”
e tocamos em frente. Quando terminam as descidas e chega-se a São
João da Graciosa, há duas opções: dobrar
à direita, no rumo de Morretes, ou mergulhar no sertão
do pé da serra, em direção à Guaraqueçaba.
Nesta viagem, escolhemos a segunda. Já eram quase dez da noite
quando chegamos num ponto ideal para o pernoite, o Rio do Nunes, que
fica uns 12 km adiante da cidade de Antonina e tem vários campings.
Neste dia, pedalamos um total de 65 km.

Preservação - A região guarda
um dos maiores
trechos contínuos de Mata Atlântica do País
Foto: Eduardo Green e Jonatha Jünge/Caminhos do Sertão
O merecido descanso do dia seguinte resultou em bastante atraso na saída.
Começamos a pedalar com sol a pino na estradinha de asfalto que
precede o chão pedregoso que leva à Guaraqueçaba.
Para amenizar a força do grande astro, vale a criatividade. Fernanda,
uma das colegas de viagem, improvisou um eficiente sombreiro com folhas
de palmeira, e protegeu-se com uma camiseta branca cobrindo os ombros,
lembrando um hábito de freira, o que provocou risos na turma
diante dessa insólita religiosa a vagar de bicicleta em pleno
Carnaval.
Como o calor intenso não aliviava, tomamos uma
sábia decisão. Paramos no primeiro boteco que surgiu na
estrada de chão para esperar até que os raios solares
se acalmassem. Além dos cachos de banana e garrafas de cachaça,
aquele oásis tinha um laguinho de águas turvas. Perguntei
se era um pesque-pague, ao que o dono me respondeu:
- Não é não, mas o pessoal vem, pesca e paga.
Dizem que os estranhos hábitos dos humanos modernos,
que passam dias e dias apenas pressionando teclas, podem levar-nos a
um estresse irreparável. Por isso, atividades manuais e que nos
reconectam com o ambiente, como uma boa pescaria, são recomendadas
para evitá-lo. Então, ali onde não é pesque-pague,
mas pesca-se e paga-se, fui fazer um pouco de terapia.
Vendo que meu desempenho não era dos melhores, o filho do dono
arranjou-me um molinete, de modo que eu pudesse atingir as águas
mais profundas do meio do laguinho e me ajudou a fisgar as quatro tilápias
que assamos na casa do tio dele mais tarde. Chegamos pedindo apenas
grelha e um cantinho pra fazer fogo, mas o homem, hospitaleiro como
todo bom sertanejo, cedeu sua cozinha e o fogão à lenha.
Como se não bastasse, preparou um farto cozido de palmito (de
palmeira real, com manejo sustentável), colhido na hora.
História e Natureza - Em poucos dias é
possível saborear um bocado de
cenários pedalando entre os picos de Serra e o complexo de baías
que
formam a fronteira norte do litoral paranaense. Trem e barco
complementam a mobilidade e trazem boa parte das surpresas do caminho
Foto: Eduardo Green e Jonatha Jünge/Caminhos do Sertão
Depois do banquete, voltamos à pista e o sol foi substituído
por uma boa chuva de verão. Ainda assim, os trechos com muita
pedra ladeira acima, somados ao calor extenuante que havíamos
passado no início do dia, castigaram bastante. Anoiteceu na estrada
deserta e o cansaço geral bateu até que uma luz adiante
anunciou a proximidade do povoado de Tagaçaba, melhorando os
ânimos durante a aproximação lenta até lá.
Na chegada, a opção de uma pousadinha, descanso e um pouco
de conforto, realmente trouxe de volta o bom humor de todo o grupo.
Até Guaraqueçaba ainda teríamos
mais de 40 km. O chão não mudaria: terra com muitas pedras,
alguns seixos bem incômodos que exigem esforço na subida
e destreza na descida. Por respeito aos apelos femininos, resolvemos
abortar este trecho. Rodamos o vilarejo à procura de fretar um
barco, já que o Rio Tagaçaba é navegável
e termina na Baía de Paranaguá. Isso nos permitiria desembarcar
na Ilha de Superagüi, que faz parte do Parque Nacional do Superagüi,
uma área de 45 mil hectares que tem como atração
principal sua exótica fauna que inclui vários animais
ameaçados de extinção, como o papagaio-da-cara-roxa
e o mico-leão-da-cara-preta.Também marcam presença
as aves marinhas, como o biguá, a fragata e a garça branca.
Esperamos o barco na mais completa alegria, fazendo
churrasquinho à beira-rio, dando uns mergulhos, pendulando em
corda amarrada numa árvore e saltando na água feito crianças.
No último dia, embarcamos bem cedo com destino a Paranaguá.
Em frente à Ilha do Mel, ficamos à deriva. Um problema
no sistema de refrigeração do motor do barco fez o assistente
meter a mão na graxa. Como não houve solução,
o jeito foi seguir adiante contornando a falha de maneira bem primitiva:
o marujo ia enchendo baldes de água do mar e jogando na casa
de máquinas, de onde uma mangueira sugava o líquido e
refrigerava o motor. Um enjambro que deu certo, embora diminuísse
pela metade a velocidade do barco.
Em Paranaguá, fretamos um caminhão para
levar as magrelas e fomos de ônibus até Morretes, pois
seria impossível pedalar e chegar a tempo de pegar o trem. Por
azar, a Quarta-Feira de Cinzas fez jus ao nome. Da deslumbrante viagem
de trem cortando a Serra do Mar, tivemos apenas a lembrança de
passagens anteriores e de um kit de cartões-postais comprados
a bordo para refrescar a memória. Engenhosa obra arquitetônica,
a estrada de ferro foi construída em 1890 e é hoje uma
das mais antigas ferrovias em funcionamento no País. Na época,
era a única via de acesso ao litoral. Hoje, com seus 110 km e
13 túneis leva, diariamente, turistas do mundo todo num agradável
passeio que dura cerca de três horas. Nós, porém,
não víamos praticamente nada daquelas monumentais pontes
de ferro e de outros detalhes da majestosa ferrovia.
Em Curitiba, enquanto nossas parceiras descansavam na rodoviária,
encaramos uma última pedalada de 25 km para buscar os carros
em Quatro Barras, fechando essa ciranda carnavalesca pela Serra e Litoral
paranaenses.
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