"Esta entrevista é um relato
humano sobre um atleta completo que logo após sofrer um acidente
com sua bicicleta soube transladar todo o valioso de sua vida desportiva
a uma cadeira de rodas."
O atleta espanhol Diego Ballesteros há alguns
anos se tornou conhecido a nível mundial por traçar uma
rota desde Zaragoza, Espanha até a inauguração
dos jogos Olímpicos de Pequim. Tal percurso, que na sua totalidade
somou mais de 12.800 quilômetros, deu origem a um documentário
e a um livro que serviram como testemunhos tangíveis da força
e convicção deste aclamado esportista.
Essa epopeia se tornou mais evidente quando há
6 meses um motorista imprudente o atropelou deixando-o com sérias
lesões que o deixaram incapacitado para continuar praticando
esporte tal qual o fazia. Depois de cirurgias, intensas terapias e o
apoio de sua família, conseguiu recuperar-se, mas acarretando
sequelas definitivas.
Tais lesões são as que hoje o mantem numa
cadeira de rodas, mas que o ensinou muito mais da vida do que ele mesmo
esperava.
Ele deu a volta por cima e por causa de seu acidente, vê a vida
com outros olhos, tanto assim que ele mesmo se pergunta: Como posso
queixar-me? Como?

Diego Ballesteros, na cadeira de rodas depois de um acidente de bicicleta
Poucos dias depois da alta ele concedeu uma breve entrevista a um meio
de comunicação de seu país. Então, vamos
à entrevista:
A quanto tempo na cadeira de rodas?
Desde junho passado, quando sofri o acidente.
Que aconteceu?
Competia na Race Across América: pela primeira vez participava
uma equipe espanhola, éramos quatro ciclistas...
Em que consiste essa competição?
Em cobrir 5.000 quilômetros de bicicleta, cruzando o Estados Unidos
de oeste a este, mediante relevos. Na Rodovia de Wichitta, um carro
me atropelou.
Por detrás?
Sim. Ainda que eu pedalasse por una faixa muito larga, um jovem de 20
anos se distraiu revirando do porta-luvas e me atropelou.
Que lesões você
sofreu?
Eu avançava a 30 km/h, e ele, a 100 km/h: voei três metros,
rompi as duas cabeças dos perônios, a cadeira, quatro costelas,
duas vértebras esmagadas e duas vértebras quebradas.
Ufa!.
Não perdi os sentidos... Minha condição física
de esportista me salvou, disse o médico.
A quanto tempo praticava esportes?
Toda vida: tênis, futebol, atletismo, maratona, escalada, esqui
de travessia e, finalmente, bicicleta por longas distâncias.
Qual foi sua maior conquista?
Em 2008 pedalei 12.822 quilômetros em cem dias (128 quilômetros
por dia), desde a Expo de Zaragoza até os Jogos Olímpicos
de Pequim, em condições extremas.
O que foi mais difícil?
Uma ventania em Mongólia: ela me atirava nas pedras, me derrubava
da bicicleta. Ou temperaturas de 51ºC na depressão de Turfan...
E o melhor?
Dormir debaixo das estrelas do deserto. E o carinho das pessoas pelo
caminho. Fiz amigos para sempre, como Josan, que me acompanhou por dois
dias; como León, que me hospedou em sua casa na Servia; como
Mike, que pedalou a meu lado pela China... Chorei ao entrar em Pequim.
Realizei meu sonho!
E com que sonha agora?
Com voltar a ser professor do instituto, casar-me, ter filhos... E rodar
de bicicleta de três rodas, pedalando com as mãos.
Que dizem os médicos?
Uma negligência pós-operatória ali ocasionou isquemia
da medula espinhal: morta até a vértebra cervical-6, meus
músculos não respondem do peito para baixo.
Não existe recuperação
possível?
Jamais moverei nem abdomem nem pernas.
E em que consiste a reabilitação
que você fez no Institut Guttmann?
Me ensinaram a me valer por mim mesmo: me vestir, passar da cadeira
de rodas ao vaso sanitário, me levantar do chão, superar
obstáculos com a cadeira... Tratar-se de ser autônomo.
É duro?
Duríssimo. Incluidas umas paralelas para estar na vertical...
Mas é a melhor sensação do dia: voltar a estar
de pé! E favorece a circulação sanguínea
e combate a osteoporose.
Com que mais sonhas?
Passear pelo bosque, pelas montanhas do Pirineo de Huesca, perder-me
entre as árvores do Somontano, procurar pelas setas indicativas...
Porque na cadeira de rodas já sei que não poderei...
Como está seu ânimo?
Minha namorada foi muito importante, psicologicamente: depois do acidente,
propus terminar nossa relação. Porém, me respondeu
que ela estava apaixonada por mim, não de minhas pernas... E
está ao meu lado! Conservar meu entorno afetivo foi decisivo.
Me dizia que querem ter filhos...
Sim, daqui há alguns anos, quando tenhamos assumido esta nova
vida... Existem métodos de fecundação com meu próprio
esperma…
Não pode ser mediante
sexo convencional?
Sou flácido do peito para baixo. Existem medicamentos que podem
me facilitar uma ereção, mas ao carecer de sensibilidade,
fica impossível ejacular.
Que planos tinhas justo antes
do acidente?
Cruzar Canadá de bicicleta, sozinho. Mantenho esse sonho, claro,
pois tenho a ilusão de voltar a viajar, fazer esporte...
Como você se mentaliza
para não cair em uma depressão?
Penso no agora, não no passado, e procuro que o presente seja
o mais pleno possível. Agora escrevi um livro sobre minha viagem
Zaragoza- Pequim, veja.

Você conversou com o rapaz de 20 anos que te atropelou?
Não quis vê-lo. Que diria a ele? Todos nós nos descuidamos
alguma vez, Eu já o perdoei... porque, adiantaria ficar de frente
a frente com ele, identificar a um culpado? Não acredito...
Você se arrependeu alguma
vez por ter ido à Race Cross América?
Não. Porém de uma coisa estou certo: nada de competir
com poucos meios, sem garantir ao máximo a segurança!
Tem que ficar claro isso!
Caem muitos ciclistas na rodovia...
Sim. Por favor, motoristas: um ciclista pode incomodar, mas sua vida
está em tuas mãos!
Até quando estará
em reabilitação?
Já tive alta e volto a me instalar em casa, em Barbastro
Como tens passado esses seis
meses aqui?
Não estou tão mal: há companheiros de reabilitação
com lesões cerebrais... ou medulares mais graves. Fiz um amigo,
Alberto, paralizado do pescoço para baixo por um acidente: sua
esposa acaba de lhe dar gêmeas, e ele... Ele daria tudo para poder
acariciá-las... Como posso me queixar? Como?
Você tambén pode comprar o livro onde
Daniel narra sua travessia de 12.822 km.
Por ser uma auto-edição, a distribuição
é pequena, assim comprá-lo pela internet pode ser considerado
mais fácil e cômodo.
Envie um e-mail a este endereço: expoolimpiadas@hotmail.es
fonte: blog do Professor arnaldo
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