Por: Marcos Adami
O primeiro acidente de bicicleta de que se tem notícia aconteceu
em 1842, quando Kirkpatrick McMillan atropelou com seu velocípede
uma garotinha, que assistia a uma corrida, em Glasgow, na Escócia.
Verdade ou não, a realidade é que o Brasil tem pouco mais
de 600 quilômetros de ciclovias, número muito pequeno para
uma frota nacional de 50 milhões de bicicletas.
A chance de pedalar nas grandes cidades, sem ciclovia
ou faixa de ciclista, e se envolver num acidente é grande. E
nas rodovias o panorama não é diferente. O número
de acidentes com ciclistas nos 3.500 quilômetros de rodovias paulistas
privatizadas aumentou 93,5% num intervalo de cinco anos. De acordo com
levantamento da Agência de Transporte do Estado de São
Paulo (Artesp), em 2000 ocorreram 309 colisões envolvendo ciclistas,
número que subiu para 598 em 2004.
E o problema tende a piorar, já que 7,4% dos deslocamentos feitas
nas áreas urbanas brasileiras, perto de rodovias ou não,
são feitos por bicicleta.
O fato é que basta sair na rua para estar sujeito aos mais diferentes
tipos de acidentes, graves ou não. Desde uma inofensiva e divertida
queda até uma mordida de cobra na trilha, ou o pior, um acidente
envolvendo um veículo automotor. O mais importante é manter
a calma e seguir certos procedimentos que poderão fazer toda
a diferença para o acidentado.
ACIDENTES MAIS COMUNS
Um trabalho apresentado pelos norte-americanos Matthew J. Thompson e
Frederich P. Rivara, da Escola de Medicina da Universidade de Washington,
em Seattle, mostrou que os acidentes com bicicletas são responsáveis
por aproximadamente 900 mortes, 23 mil internações hospitalares,
580 mil visitas aos prontos-socorros e a mais de 1,2 milhão de
atendimentos médicos por ano nos Estados Unidos, com um custo
anual estimado em mais de oito bilhões de dólares. Em
1988 foi estimado que aproximadamente 4,4 milhões de crianças,
com idade entre cinco e 17 anos, foram feridas em acidentes envolvendo
a participação em esportes ou recreação,
sendo que, destes, 10% a 40 % se relacionavam com o ciclismo.
Os motivos para tantos acidentes são muitos. Uma pesquisa no
Reino Unido mostrou que entre 60% e 85% dos acidentes que envolvem os
chamados “ciclistas sérios”, aqueles que andam equipados
com capacete e demais equipamentos de proteção e seguem
as leis de trânsito, são causados por negligência
de motoristas.
Outro estudo, elaborado pelo Instituto Real de Segurança Rodoviária,
da Holanda, apontou que 47% dos ciclistas envolveram-se sozinhos em
acidentes, 12% chocaram-se contra obstáculos na pista ou animais
e 40% foram vítimas de colisões contra outros veículos,
que normalmente acontecem quando o biker está em velocidades
superiores a 15 km/hora.
FATORES DE RISCO
Entre as condições de risco que propiciam um acidente,
o estudo de Thompson e Rivara destaca: ciclista do sexo masculino; idade
entre nove e 14 anos; verão; fim de tarde ou no início
da noite; não usar capacete; automóvel envolvido; ambiente
inseguro; ciclista portador de distúrbio psiquiátrico;
uso de álcool e outras drogas. Para terminar o estudo também
aponta o mountain bike como fator de risco. E quem já assistiu
a uma prova de downhill, four cross ou cross country sabe que não
é exagero. Segundo a pesquisa, os ciclistas off-road têm
uma incidência de acidentes 40% menor que os urbanos.
LESÕES MAIS COMUNS
Estudos comprovam que as lesões com ciclistas
se localizam primeiramente nas extremidades, seguidas de lesões
na cabeça, face, abdômen ou tórax e pescoço.
As “raladas” podem ser superficiais ou mais profundas, nesse
caso pode ser necessária uma intervenção cirúrgica
para prevenir “cicatrizes traumáticas”. As distensões,
fraturas e luxações também são comuns. A
clavícula é um dos ossos mais vulneráveis para
ciclistas. Os braços vêm logo em seguida, juntamente com
os dedos dasmãos.
Os traumas cranianos (contusão cerebral, hemorragia intracraniana,
fraturas) ocorrem entre 22% e 47% dos ciclistas acidentados, sendo responsáveis
por 60% dos óbitos e por um longo tempo de inatividade. O trauma
de crânio é a causa principal de morte em acidentes de
bicicleta – mais de 60% dos casos. Ciclistas que não usam
o capacete têm 14 vezes mais chances de ter um acidente fatal
do que aqueles que o usam.
As lesões do pescoço são raras e geralmente decorreram
de colisão direta com outro veículo. O trauma abdominal
é representado por lesões no baço, fígado,
pâncreas, rins, hérnias traumáticas e fraturas pélvicas,
entre outras. O trauma perineal é aquele que envolve os órgãos
genitais e a uretra.
MELHOR PREVENIR
Em se tratando de acidentes, o melhor mesmo é
prevenir. E a prevenção começa antes de sair para
pedalar. O primeiro mandamento da segurança é nunca pedalar
sozinho. O ideal é pedalar em três, assim, em caso de acidente,
um cuidará da vítima e o outro vai buscar socorro. Só
fazer pedaladas dentro de nossas capacidades é outra dica esperta,
respeitando nossas limitações físicas e habilidades.
Antes de sair para pedalar, seja na cidade, estrada ou trilha, é
fundamental que o ciclista informe a família onde vai, com quem
e a que horas planeja estar de volta. Outro cuidado importante é
o de levantar todos os dados do lugar onde se planeja pedalar.
O biker deve procurar saber:
nível técnico do percurso
duração aproximada para pedalar determinado trecho
hora do pôr-do-sol, para evitar ser pego de surpresa (basta consultar
um site de previsão do tempo)
onde procurar socorro nas imediações
existência de sinal de telefonia celular
Sempre é bom ter em mente os números
dos serviços de emergência e socorro. Em todas as cidades
brasileiras com mais de 150 mil habitantes, o Governo Federal oferece
o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU),
que pode ser acionado pelo telefone 192 e atende a 926 municípios
brasileiros.
Nunca é demais lembrar que é fundamental pedalar de capacete,
luvas e óculos. O capacete reduz em até 85% as lesões
na cabeça e em aproximadamente 65% os traumas no rosto e no nariz,
desde que utilizado corretamente. As luvas reduzem substancialmente
as lesões superficiais da mão e previnem a compressão
de nervos. O uso de óculos protege contra as eventuais pedras
lançadas pela bike que vai à frente, vegetação
e dos raios solares nocivos.
SEGURANÇA NAS COMPETIÇÕES
Organizadores de provas têm muita responsabilidade
na prevenção de acidentes. Tudo começa na hora
de traçar o trajeto. “Tomamos o cuidado de eliminar os
chamados ‘pontos críticos’ do percurso. Assim eliminamos
possibilidades de acidentes logo de cara”, conta o paulista Marcos
Silveira, que organiza eventos esportivos desde 1990. “No ano
passado todinho tivemos apenas uma clavícula quebrada nas dezenas
de provas que organizamos”, orgulha-se Silveira.
Pontos críticos podem ser um drop, uma forte descida, uma curva
fechada, uma erosão ou valeta etc. Em alguns casos, como em algumas
etapas do Tour de Santa Catarina e Volta a SC em MTB, a organização
providencia um fiscal com uma bandeira para sinalizar o perigo. As equipes
de socorro deverão permanecer próximo a esses pontos críticos.
No caso das maratonas de mountain bike e voltas
ciclísticas, a organização deve sempre se preocupar
com os retardatários. “Na Maratona dos Canaviais, por exemplo,
dividimos o percurso de 100 km em lotes. Nosso serviço de emergência
médica é composto por sete ambulâncias simples e
mais duas UTIs, que ficam em pontos estratégicos da prova. Temos
dois socorristas e duas ‘voadeiras’, que são picapes
4×4 para deslocamento rápido”, explica Silveira.
A comunicação entre atletas, organização
e socorristas é fundamental numa emergência. Em provas
de cross country, rádios cumprem bem esse papel; já em
maratonas e voltas, o celular é a melhor opção.
“Fazemos uma listagem com telefones de nossas equipes de socorro
e distribuímos para todos atletas.”
Outra importante medida a ser tomada nas competições
de mountain bike é a dispersão dos corredores nos primeiros
quilômetros após a largada, quando os reflexos do competidor
ainda estão lentos. Uma forte subida servirá para espalhar
o pelotão e evitar acidentes.
IMPORTANTE:
ao sofrer um acidente ou passar mal numa prova, um competidor deverá
permanecer no circuito, pois certamente será encontrado por algum
fiscal de percurso.
SOCORRO OBRIGATÓRIO
De acordo com o artigo 135 do Código Penal
Brasileiro, todos somos obrigados a prestar socorro para vítimas
de acidentes ou males súbitos, sob pena de processo por omissão
de socorro. A pena pode chegar a um ano de detenção e
será aumentada se a omissão resultar em lesão corporal
e pode até triplicar, em caso de morte.
Só escapam dessa Lei menores de 16 anos, gestantes a partir do
terceiro mês e maiores de 65. Socorrer, muitas vezes, implica
em somente proteger o local do acidente e chamar ajuda especializada
como veremos adiante.
Bikers podem tirar proveito dessa lei. Por exemplo: podemos acionar
os serviços de emergência de uma rodovia, mesmo que o acidente
tenha acontecido fora dos domínios da estrada.
GOLDEN HOUR
“A principal causa-morte pré-hospitalar
é a falta de atendimento. A segunda é o socorro inadequado”,
dizem os especialistas. Os primeiros-socorros são as primeiras
providências que tomamos no local do acidente, até a chegada
de uma equipe profissional. Mais que rapidez, é necessário
socorrer a vítima de maneira adequada para evitar males piores.
O ideal é que o acidentado esteja em um centro cirúrgico
em no máximo 60 minutos após o acidente. É o que
se chama de “golden hour”, ou hora de ouro.
O BÁSICO
O objetivo dessa reportagem é ensinar as
noções básicas do que fazer nas emergências
e que não precisam de treinamento.
1- Mantenha a calma. Pare e pense, não faça nada por instinto.
Conforte a vítima, mas não mexa nela. Tenha sempre em
mente: toda vítima de acidente possui lesão cervical,
até se provar o contrário
2- Garanta a segurança do local para evitar outros acidentes
3- Procure socorro. Pare algum veículo, use o celular, encontre
um orelhão
4- Controle a situação. Distribua tarefas para outras
pessoas: um procura ajuda, outro conforta a vítima, outro sinaliza
etc.
5- Observe as reações do acidentado. Se ele se levantar
sozinho é um bom sinal
Em regiões remotas, comuns nas longas pedaladas de mountain bike,
é importante saber as etapas básicas do socorrismo. Os
procedimentos de emergência pré-hospitalar obedecem ao
protocolo internacional da OMS, a Organização Mundial
de Saúde.
ETAPAS BÁSICAS DO SOCORRO
1- Verificar se a vítima está consciente
ou não;
2- Sinalizar o local do acidente;
3- Converse com a vítima. Pergunte onde dói, nome, onde
mora, idade, telefone etc. O estado de uma vítima é inversamente
proporcional ao número de informações obtidas pelo
socorrista;
4- Checar os sinais vitais como respiração (use o dorso
da mão para sentir) e o pulso (dá para sentir no pescoço,
na carótida);
5- Observar as reações da vítima e procurar mantê-la
abrigada do sol e do frio.
IMPORTANTE
Um acidentado somente deverá ser removido:
1- Quando não houver mais nada a fazer no local;
2- Quando a remoção for essencial para vida da vítima;
3- Quando o local oferecer risco iminente para a vítima ou socorrista.
Exemplo: a vítima está sob uma árvore que está
prestes a cair.
ATÉ CHEGAR O SOCORRO
HEMORRAGIAS
Para estancar uma hemorragia, o método mais
eficaz é fazer compressão direta sobre a área,
pode ser com a própria roupa. Outro método é elevar
o membro e usar a gravidade a favor.
Se não funcionar, o jeito é improvisar um garrote ou torniquete
com um pedaço de tecido ou fita de borracha, tomando-se o cuidado
para liberar o fluxo sanguíneo por um minuto a cada 15 minutos.
Em cortes pequenos com sangramento, dá para improvisar pontos
falsos com esparadrapo.
CABEÇA
O trauma de crânio é responsável
por 60% das mortes dos ciclistas que se envolvem em acidentes e o ponto
mais vulnerável do crânio é a região conhecida
como têmpora, na lateral da cabeça, entre a orelha e os
olhos.
Pancadas fortes na cabeça resultantes de quedas podem deixar
a vítima inconsciente por alguns minutos ou até mesmo
várias horas e dias.
Um biker deverá procurar o médico se após um acidente
apresentar: perda da consciência, confusão mental ou perda
de memória, dor de cabeça, visão embaralhada, perda
de audição e vômitos. Não dê chance
para o azar. Se bater a cabeça, procure um hospital o quanto
antes.
FRATURAS
Clavículas, braços e os dedos das mãos são
as fraturas mais comuns entre ciclistas.
ATENÇÃO:
Jamais tente alinhar um membro fraturado.
Os membros devem ser imobilizados obedecendo aos desvios causados pela
fratura. Improvise uma tala com pedaços de madeira envoltos em
tecido. A vitima deve evitar movimentos.
DESMAIOS
Desmaio é uma breve perda de consciência e uma forma de
defesa do corpo.
Para se proteger de um trauma, o corpo pode desmaiar na tentativa de
economizar energia para enviar sangue para as partes vitais: cérebro,
coração e rins.
A pessoa que desmaia pode ficar neste estado por alguns segundos até
uma hora.
Os motivos podem ser muitos, entre eles a queda de açúcar
no sangue (hipoglicemia), insolação, cansaço e
dores extremas, estresse emocional, intoxicação ou qualquer
situação onde ocorra uma perda rápida de sangue.
A vítima deve ser deitada com cabeça
mais baixa do que o coração e os membros inferiores devem
ser elevados em mais ou menos 30 cm.
Gire a cabeça da vítima para o lado para que sua língua
não interrompa a passagem do ar na garganta; afrouxe as roupas,
umedeça a face e o pescoço da vítima com uma toalha.
IMPORTANTE: Jamais
dê líquidos para alguém inconsciente.
DENTES
Quedas e colisões frontais podem resultar em dentes quebrados
ou arrancados.
A vida do dente vai depender do rápido reimplante.
Se o tecido que envolve a raiz secar antes do dente ser implantado,
a cirurgia não terá sucesso.
Se o dente afetado ficou no local, não toque nele e nem na raiz
e procure um cirurgião-dentista imediatamente.
Se o dente caiu totalmente, limpe-o e coloque-o novamente no lugar original,
sem mexer na raiz.
Se o dente amoleceu com a pancada, mantenha-o no local com a língua,
com cuidado para não engoli-lo. Jamais retire o dente para levá-lo
no bolso.
OLHOS
Ferimentos nos olhos são comuns, normalmente por pedras lançadas
pelo biker à nossa frente, ou pela vegetação e
insetos.
Não há muito o que se fazer no meio do mato, a não
ser lavar os olhos com água limpa.
Procure um médico imediatamente se sentir dor profunda, perda
de nitidez da visão e/ou visão dupla ou sangramento.
Mudanças no formato e no tamanho da pupila, coloração
rosa na secreção lacrimal ou ver um objeto preto flutuando
também indicam problemas mais sérios.
MORDIDAS DE COBRAS
Uma regra do atendimento pré-hospitalar diz que não existe
nenhuma cobra venenosa conhecida que possa matar um adulto sadio em
menos de quatro horas.
Casos isolados são atribuídos a choques anafiláticos.
(Essa regra não se aplica a idosos e crianças). Portanto,
na maioria dos casos, haverá tempo para os cuidados em um hospital.
Sendo assim, no socorro moderno não se deve
fazer nada diretamente na vítima.
O ideal é pelo menos tentar identificar a cobra – animal,
cor, tamanho, formato de cabeça e cauda – para que seja
aplicado o soro específico.
A vítima deve manter-se calma e inativa, evitando o estresse
e consequentemente o aumento da freqüência cardíaca,
que irá acelerar a dispersão do veneno.
Não se utiliza o torniquete, pois pode acelerar o processo de
perda do membro ou causar morte.
fonte: bikemagazine.com.br
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