A OCE Treine.net, empresa mineira
do ciclista e treinador Hugo Prado Neto é pioneira no Brasil
no protocolo de treinamento em tendas que simulam a altitude.
A empresa, que utiliza há mais de 10 anos avançados
medidores de potência como principal ferramenta no treinamento
de seus atletas, é a primeira no país na elaboração
de protocolos de treinamento em tendas que simulam altitude. Hugo Prado
Neto acumulou experiências e estudos com a tenda por mais de um
década.
Hugo foi acompanhado e instruído de perto por
um de seus principais mentores na carreira como atleta e técnico,
o experiente Dean Golich, que tem uma carreira de técnico recheada
de vitórias em campeonatos mundiais e algumas medalhas olímpicas.
Confira a entrevista de Hugo Prado Neto concedida a
Laura Baeta sobre treinamento em altitude, disponível agora no
Brasil.
Qual foi o seu primeiro contato com o treinamento em
altitude?
Em 2000, estudando na Universidade da Flórida,
tive as primeiras lições sobre treinamento em altitude
dentro da sala de aula. Aprendi o básico e os variados protocolos
de como manipular o treinamento em altitude.
Quando me formei, em 2000, consegui um estágio
na Carmichael Training Systems (CTS) no Colorado, empresa do técnico
do Lance Armstrong. Lá entrei num mundo mágico para quem
gosta de treinamento e alta performance. Me vi dentro de um escritório
em que o serviço número um era fazer seus atletas voarem,
vencerem as Olimpíadas, serem campeões mundiais.
Trabalhávamos 24 horas por dia em busca de ferramentas
para fazer nossos atletas melhorarem. Me vi envolvido com pessoas referências
em treinamento esportivo como Chris Carmichael, Ed Burke (um dos fisiologistas
e pesquisadores mais renomados do mundo), Dean Golich, mestre em treinamento
de potência, entre outros.
Além disso, nossa carteira de atletas incluia
campeões mundiais e campeões olímpicos. Com isso
eu podia ver exatamente o que os melhores técnicos do mundo prescreviam
e o que os melhores atletas do mundo faziam. Era um prato cheio.
Na cidade onde morei, Colorado Springs, fica localizado
o centro olímpico dos Estados Unidos. Então, os atletas
olímpicos estavam ali presentes e qualquer novidade em treinamento
esportivo ou nova técnica a gente descobria e muitas vezes nós,
do CTS, é que havíamos desenvolvido a nova ferramenta
para esses atletas.
Outro detalhe é que eu já era ciclista
profissional na época e a cidade fica a 2 mil metros sobre o
nível do mar e tem vários picos altos em volta da região.
Pude então sentir na pele o que um treinamento em altitude pode
fazer, quais são os sintomas e fui me aprimorando automaticamente
no assunto.
Como funciona e como é a tenda de altitude?
A tenda de altitude que temos é da empresa Colorado
Altitude Training, pioneira no assunto de simulação de
altitude. Ela é basicamente uma tenda de acampamento com laterais
de plástico transparente e vários zíperes para
o controle da entrada de ar vinda de um motor que, propositalmente,
envia o ar com uma porcentagem de nitrogênio maior que o normal,
simulando assim a altitude.
Dentro da tenda há um medidor de porcentagem
de oxigênio no ar e, por meio de uma tabela, podemos concluir
a altitude que estamos. Por exemplo: se o atleta está efetuando
o treinamento na tenda no Rio de Janeiro em seu apartamento (0m de altitude)
um percentual de O2 de 16.55 equivaleria a 2.060 metros de altitude.
Existe um protocolo definido?
Não existe um protocolo definido, até
porque o treinamento em altitude provoca resultados variados em cada
indivíduo. Mas existe um consenso geral entre os cientistas,
técnicos e atletas. Por não ter um protocolo definido
e não ser exatamente uma receita de bolo, o treinamento em altitude,
a meu ver, é uma das ferramentas mais difíceis de manipular
e prescrever corretamente no mundo da alta performance.
Mas já se tem uma noção. Por exemplo:
que a melhoria em geral é de um a três por cento em atletas
de ponta. Se você é um triatleta de longa distância,
um maratonista ou um ciclista o valor de 1 a 3% pode representar a diferença
entre o décimo colocado e o campeão.
Outro consenso é a altitude correta para o alto
rendimento em esportes de resistência e esse valor está
por volta de 1.900-2.800m de altitude sobre o nível do mar.
Quais os parâmetros para analisar os resultados?
Aí que entra outra parte bastante complicada.
Os parâmetros numéricos são feitos por meio de análises
semanais de sangue, mas não é tão simples como
ver o valor aumentar, por exemplo, dos hematócritos.
Muitas variáveis podem contribuir para o aumento
ou diminuição desse valor, sendo totalmente externo ao
treinamento na tenda de altitude. Por isso tem que cruzar os números
e observar o número de hemácias, o tamanho das células
vermelhas, seu volume, e o número de células vermelhas
maduras, que são as células produzidas pelo estímulo.
A fase de treino do atleta, nível de hidratação,
perda ou não de peso são apenas outros exemplos de detalhes
a serem observados e jogados na equação final.
Existe o que eu nominei de “valores ocultos”.
Por exemplo: o atleta me envia o hemograma da semana e vejo que o hematócrito
diminuiu e estávamos esperando ansiosamente por um aumento. Acontece
que uma adaptação positiva do treinamento aeróbico
é o aumento da parte plasmática do sangue, a parte líquida.
O aumento do volume plasmático do sangue faz
com que o percentual de hematócrito diminua ou esteja diluído
dando um valor baixo para as células vermelhas. Isso seria um
valor oculto, pois o valor negativo significa na verdade uma adaptação
positiva.
Qual a vantagem de atletas amadores utilizarem um método
tão complicado e sofisticado?
O treinamento em altitude que disponibilizo no Brasil
foi e será usado tanto para atletas profissionais que buscam
uma mínima margem de vantagem quanto para atletas amadores.
Os atletas amadores têm total direito de usufruir
e ter a experiência de treinarem como profissionais, de melhorarem
a performance de maneira legal e sentirem o gostinho do alto rendimento.
No Brasil, a mentalidade sempre foi: eu não sou
profissional, então eu não preciso de treinamento especializado,
eu não preciso de um bike fit e por aí vai.
Uma das principais missões da OCE-treine.net
é abolir esse pensamento errôneo e negativo. A minha opinião
é que se você gosta, faça direito.
O ser humano quer melhorar a cada dia, então
acho natural estarmos sempre buscando o melhor e melhorar com novas
técnicas.
Por exemplo, o Guilherme Ballesteros é um cirurgião
ortopedista superrenomado e apaixonado por ciclismo e ele já
fez o uso do treinamento em altitude e a cada semana os resultados dos
exames aumentavam.
Digamos que o treinamento em altitude nele não
tivesse trago um benefício fisiológico, mas só
do atleta estar sendo totalmente monitorado, a motivação
dele cresce e toma outra proporção. E fica sempre aquele
sentimento bom de um pessoa disciplinada e de sucesso: fiz tudo que
tinha que fazer para me dar bem.
O resultado na área profissional também
é nítido para esses atletas amadores. Geralmente os resultados
são sempre positivos. No caso do Ballesteros, de iniciante no
ciclismo, ele se tornou campeão brasileiro na categoria Master
da modalidade e é o brasileiro, até hoje, com a melhor
colocação no L´Etape do Tour de France.
Outro atleta OCE acabou de ficar cinco semanas na tenda
e os resultados numéricos de hemograma foram excelentes e seus
tempos e potências nos treinos só aumentaram até
a fase de polimento para sua última competição,
o Triathlon Long Distance de Pirassununga.
Quanto você acha que ele ganhou de confiança
e vontade de acelerar na próxima prova? Isso não tem preço.
Acredito que o valor desse investimento não seja palpável.
fonte: bikemagazine
topo