por: Eduardo Vessoni
Tráfego intenso, excesso de caminhões e curvas sinuosas.
Tem gente que faz de tudo para evitar esse cenário, comum em
muitas estradas brasileiras, durante os deslocamentos entre cidades.
Mas na Bolívia, o perigo virou produto turístico e atrai
viajantes que pagam para acrescentar alta dose de adrenalina em sua
viagem: são os ciclistas (profissionais ou não) que serpenteiam
as vertiginosas curvas da Rota da Morte, a estrada mais perigosa do
mundo
GUIA DE DESTINOS: LA PAZ
Para encarar o Camino Yungas, a via que une La Paz a Coroico, dois requisitos
são fundamentais: saber equilibrar-se sobre uma magrela e ter
muito espírito aventureiro para 'despencar', verticalmente, os
3.400 metros que separam as duas cidades, e a uma velocidade que chega
aos 50 quilômetros por hora. Do resto, a sorte e a natureza se
encarregam.
O circuito começa em La Cumbre, aos pés
da montanha Huyaina Potosí, a 11 km da caótica La Paz.
Ali, rodeado pela beleza árida da região, o aventureiro
recebe as instruções de como comportar-se diante das curvas
que rasgam abismos profundos, faz alguns ensaios (ainda em terreno seguro)
e, em poucos minutos, lança as duas rodas sobre o cimento quente
de uma das rodovias mais cobiçadas por viajantes aventureiros
(e 'malucos').
O frio não vem apenas da barriga do aventureiro,
mas também do lado de fora. Uma das curiosidades desse circuito
é a mudança de climas e de temperatura ao longo da arriscada
e radical viagem pela região. Os ciclistas começam a aventura
no altiplano boliviano para ganhar, logo adiante, um terreno esverdeado
com cheiro de Amazônia, conhecido como Yungas, a pré-selva
amazônica.
Detalhes da Rota da Morte
O circuito ciclístico começa em La Cumbre, a 11 km da
caótica La Paz e a 4.700 metros sobre o nível do mar,
e termina em Yolosa, a cinco quilômetros de Coroico e a 1.185
sobre o nível do mar
São 3.400 metros de descida vertical entre as duas cidades do
trajeto
A viagem em bicicleta até Coroico dura, aproximadamente, quatro
horas.O trajeto tem uma extensão de 66 quilômetros
A viagem está dividida em duas etapas bem definidas: a primeira
parte ocorre ainda em área asfaltada, onde os ciclistas dividem
espaço com caminhões, ônibus e carros; e a segunda,
em terreno irregular, já no trecho da estrada da morte utilizado
apenas para fins turísticos
O ciclista conta com, pelo menos, 12 paradas estratégicas para
descanso, revisão das bicicletas e para registrar alguns cenários
da bela paisagem
As mudanças climáticas são sentidas a partir da
sétima parada, quando ocorre uma mudança brusca de temperatura.
O aventureiro deixa o altiplano para ganhar terreno quase amazônico
Cada grupo de ciclistas é acompanhado por três profissionais,
entre guias e motoristas que se comunicam por rádio em casos
de acidentes e para a atualização de informações
O perigo existe e é eminente, sobretudo em curvas
extremamente fechadas que tiram todo o campo de visão de quem
se aventura naquele terreno. Mas as agências contratadas costumam
contar com profissionais que acompanham o comboio durante toda a viagem
e que ajudam no transporte das bicicletas, explicação
das rotas e possíveis resgates e primeiros auxílios em
casos de acidentes que, em alguns casos, chegam a ser fatais.
O título mortal dessa estrada de terra
escorregadia e com centenas de curvas fechadas foi dado pelo BID (Banco
Interamericano de Desenvolvimento). Mas os riscos não são
recentes e começaram bem antes de ônibus lotados de passageiros
despencarem em profundos abismos.
A fama vem por conta de um filho de escravos que
aterrorizava brancos e mestiços que passavam pela estrada, na
segunda metade do século 19. Salvador Sea, popularmente conhecido
como Zambo Salvito, mantinha uma caverna estratégica no caminho
aos Yungas, onde se refugiava após os assassinatos e roubos que
cometia. Salvito era uma espécie de Robin Hood dos índios
aymarás e dos escravos de origem africana.
Atualmente, a estrada já não oferece esse
tipo de perigo, até mesmo para quem a cruza em automóveis.
Há três anos, o caminho ganhou um desvio asfaltado e melhor
sinalizado, e as comunidades locais viram diminuir os índices
de acidentes.
O que sobrou daquela época é uma estrada
de terra que, hoje, é utilizada apenas com fins turísticos
ou para abastecimento de algumas comunidades locais. Tem gente que ainda
prefere seguir o caminho das pedras para apreciar as paisagens exuberantes
das altas montanhas de picos nevados bolivianos, da pré-selva
e das dezenas de cascatas que completam o cenário. E se tiver
vento forte na cara, a aventura fica melhor ainda.
A descida pela Estrada da Morte, na Bolívia,
começa em La Cumbre, a 4.700 metros sobre o nível do mar
e aos pés da montanha Huyaina Potosí
SERVIÇO
Free Bikes Mountain Biking
Tel: (591) (2) 245-0917 / 7153-9549 (La Paz)
www.freebikesbolivia.com
* O jornalista Eduardo Vessoni viajou a convite da
agência Free Bikes.
fonte: uol
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